PT — LARRY ROMANOFF — Iniciativa Privada e Bem Nacional — October 9, 2020


A teoria da “eficiência privada” nunca foi comprovada na prática. Não há evidência confiável demonstrando que a iniciativa privada se saiu alguma vez melhor do que os governos na operação de sua infraestrutura e serviços sociais. Na verdade, o contrário tem sido consistentemente verdadeiro. Não conheço nenhum exemplo em que empresas americanas (ou outras) tenham se envolvido na infraestrutura social ou de outra natureza de uma nação e onde o resultado tenha sido mensuravelmente mais benéfico para a nação ou a sociedade. Essas empresas pregam o mantra da eficiência corporativa, de custos mais baixos e melhor serviço, mas em todos os casos que examinei, o contrário se mostra verdadeiro – custos mais altos e serviço mais deficiente. Quase não há exemplos, em qualquer lugar, de empresas privadas sendo mais eficientes do que o setor público no fornecimento de qualquer produto ou serviço, ou demonstrando que o empreendimento privado é mais eficiente em qualquer tipo de projeto do que o governo de uma nação. Após examinadas, essas alegações invariavelmente se provam enganosas, deturpadas ou falsas, com estudos falsos encomendados por essas próprias empresas, que selecionam os dados a dedo, distorcem as estatísticas e eliminam evidências contraditórias. A eficiência da privatização é uma deturpação ideológica egoísta que nunca se mostrou verdadeira. A iniciativa privada quer se inserir nessas áreas porque envolvem enormes somas de dinheiro e podem produzir enormes lucros, mas os benefícios acabam invariavelmente do lado corporativo e a sociedade de uma nação é invariavelmente a perdedora. A privatização é um mal, em grande parte porque a evolução dessa doença e os danos por ela causados podem revelar-se quase irreversíveis.

O súbito aparecimento da teoria e implementação da privatização não foi um acidente, mas um plano. Embora tenha existido de uma forma ou de outra por talvez cem anos, o grande impulso começou como uma resposta à pesada dívida dos governos ocidentais no início dos anos 1980, que em si não foi um acidente, mas um plano. Pense na Grécia. Depois que os Estados Unidos renegaram o padrão ouro e a conversibilidade do papel-moeda americano em ouro em 1971, e depois da década inflacionária e do colapso econômico mundial resultantes, a maioria dos governos ocidentais se viu seriamente endividada. A solução dos banqueiros internacionais e escolas de negócios foi o governo pagar suas dívidas (aos banqueiros) vendendo todos os seus ativos aos mesmos banqueiros. Mas os ativos de um governo são bens sociais que pertencem ao povo de uma nação. Não são, em nenhum sentido, ativos corporativos disponíveis para alienação em tempos difíceis para sustentar a demonstração de resultados. Esses bens sociais são rodovias, aeroportos e ferrovias, escolas e hospitais, pontes, concessionárias de energia elétrica, comunicações, represas e muito mais. Como pode uma nação funcionar sem o controle desses elementos essenciais? Esses mesmos banqueiros internacionais estão agora devastando o mundo subdesenvolvido, extorquindo a propriedade da infraestrutura física básica das nações em desenvolvimento em todos os continentes, como forma de pagamento de dívidas vencidas. Essas nações precisaram de quase um século para acumular os poucos bens físicos que possuem, e a perda deles agora para esses banqueiros vampiros contribuirá fortemente para sua pobreza perpétua, e esse era o plano.

Devemos lembrar aqui meus comentários sobre a TPP, a Parceria Trans-Pacífico dos Estados Unidos, sobre a extensa perda de soberania acarretada na participação desta “parceria” projetada por Satanás, não apenas para as nações asiáticas, mas também para os países europeus, e os extensos fatos de que o governo secreto europeu estava encorajando, muitas vezes à força, todas as nações europeias a vender cada vez mais toda a sua infraestrutura nacional para esses mesmos banqueiros e suas corporações. O mesmo está sendo feito em todas as nações em desenvolvimento, perdendo não apenas sua infraestrutura física, mas grande parte de suas terras aráveis e água acessível. Tudo isso é uma preparação para um eventual e quase total desaparecimento da soberania nacional, que implicará na instalação de bancos centrais privados e infraestrutura física e social privadas, deixando apenas as chamadas “nações” destruídas, cujos governos serão eventualmente substituídos por ditames desses mesmos banqueiros, como foi o caso da Grécia e da Itália – totalmente sem relações com as populações afetadas. A privatização não deve ser considerada isoladamente; na verdade, é apenas uma parte de um plano geral que leva ao que alguns chamam de Nova Ordem Mundial, consistindo em governos nacionais quase eviscerados e impotentes com poucos ativos remanescentes, nenhuma independência, uma pequena lista de elites compradoras e apenas uma empobrecida classe baixa de consumidores. Os sinais estão por toda parte. Este aviso não deve ser considerado levianamente.

Após a selvagem recessão induzida pelo FED no início dos anos 1980, a máquina de propaganda trabalhou 24 horas por dia promovendo este método Harry Potter de escapar sem dor das dívidas vendendo o país. E foi eficaz. Durante o frenesi idiota que se seguiu, nações como os Estados Unidos privatizaram aeroportos, rodovias, prisões, hospitais, escolas e universidades, ferrovias, usinas de geração de eletricidade, entregando tudo à iniciativa privada sob o princípio absurdo de que a empresa privada poderia fazer essas coisas com mais eficiência e a um custo menor. As forças militares dos Estados Unidos chegaram a “privatizar” muitas de suas operações militares, principalmente as ilegais, usando empresas como a Blackwater (agora Xe Services) para terceirizar operações não registradas, incluindo tortura. Anteriormente, no que só poderia ser descrito como um ataque de completa insanidade, o governo dos EUA foi manipulado para privatizar o Banco Central do país – o FED – para que uma corporação privada pertencente a banqueiros judeus europeus liderados por Rothschild controlasse totalmente a oferta de dinheiro e os mercados financeiros dos EUA. O governo dos EUA não pode imprimir seu próprio dinheiro; deve pedir ao FED que o faça e, em seguida, deve pedir o dinheiro emprestado e pagar juros sobre ele.

Tendo alcançado algum sucesso na venda de ativos para o pagamento de dívidas, os banqueiros continuaram com o argumento moral de que o governo não deveria se envolver em qualquer iniciativa que pudesse ser minimamente manipulada para gerar lucro, apoiado pelo falso argumento de maior eficiência. Essa privatização consistia na venda direta de um bem público, como uma concessionária de energia elétrica, ou na terceirização do fornecimento (mediante pagamento de taxa) do que antes eram infraestrutura física nacional ou serviços sociais públicos. Se uma concessionária de eletricidade, por exemplo, é vendida ao setor privado, o governo perde o controle tanto do fornecimento como dos preços, e praticamente o mesmo ocorre na terceirização de um aeroporto ou de uma rodovia com pedágio.

Como um exemplo óbvio entre muitos milhares disponíveis, várias cidades na China, incluindo Shenzhen e Pequim, contrataram a MTR de Hong Kong para construir e operar instalações de transporte público nessas cidades. E com que fundamento a MTR veio para a China? Ouça o que Jin Yongxiang, presidente da consultoria Dayue Consulting, com sede em Pequim, tem a dizer: “A MTR é uma empresa pública. Veio para a China para fazer negócios, não para fornecer bem-estar público”. O que mais falta a ser dito? As cidades chinesas exigem transporte público com o único objetivo de atender às necessidades sociais públicas, sem nenhuma consideração por “lucro”, mas a MTR o fornecerá com o único objetivo de obter o máximo de lucro privado possível, sem nenhuma consideração pelas necessidades de bem-estar público. Os objetivos de um governo e os da iniciativa privada são inevitavelmente e por definição contraditórios e antagônicos por natureza, então o que você acha que acontecerá com a inserção da MTR na equação? É claro que os serviços diminuirão e as tarifas públicas aumentarãoComo poderia ser diferente? O dinheiro não pode ser fabricado a partir do ar.

A privatização do setor público levará inevitavelmente a padrões de serviço mais baixos e custos mais elevados para o público, e servirá apenas para concentrar a riqueza nas mãos de uma elite minoritária (e muitas vezes estrangeira). Além disso, a privatização de qualquer tipo de serviço governamental ou infraestrutura pública levará inevitavelmente à insatisfação social, porque os objetivos e a agenda das corporações privadas nunca incluem um componente social. Elas existem para o dinheiro, não para as pessoas. Um governo opera um serviço de saúde com o objetivo de curar os enfermos ao menor custo razoável. Uma corporação privada opera hospitais com o objetivo de ganhar o máximo de dinheiro possível. Qual você acha que é melhor para a China ou para qualquer sociedade? E por favor, não se iluda achando que ‘serviço de alta qualidade’ pode ser fornecido apenas pelas secretas ‘práticas de última geração’ americanas, que são conhecidas apenas pelos Goldman Sachs do mundo e só podem ser reveladas pela inserção de uma corporação privada para sugar bilhões de dólares do sistema. Essa mentira já era velha há 200 anos.

Um dos contos de fadas favoritos do Capitalismo Ocidental é que os governos não deveriam se envolver na economia; tudo deve ser entregue à iniciativa privada e deixar “o mercado livre” controlar. Em grande parte, essa ideologia visa facilitar a privatização (a venda para corporações privadas) de muitas coisas que pertencem propriamente ao setor público (administradas pelo governo, para o benefício de todas as pessoas). Esta propaganda capitalista é usada para convencer as pessoas de que as chamadas “economias” do governo com a venda desses ativos para corporações privadas com fins lucrativos irão beneficiar enormemente o país, esquecendo de mencionar que essas chamadas “economias” são um evento único, enquanto o aumento dos custos para o público será perpétuo. Além disso, essas ‘economias’ serão alcançadas apenas por meio da perda permanente de controle das seções da infraestrutura pública que são mais importantes para o desenvolvimento futuro de uma nação, e que o dinheiro obtido com as vendas será inevitavelmente gasto em subsídios públicos para compensar os serviços reduzidos e os custos mais elevados. Sua motivação real é, obviamente, os enormes lucros que podem ser obtidos com o controle de escolas, hospitais, aeroportos, sistemas ferroviários, geração de eletricidade, saúde nacional e outros setores de uma nação. Não faltam evidências convincentes de que essas pessoas não têm nenhuma preocupação com o bem-estar público de um país, nem com o que é melhor para a sociedade.

As “parcerias público-privadas” tão elogiadas pelo segmento capitalista da sociedade americana são, em sua maioria, esquemas fraudulentos para se alimentar do fundo público. O sistema de saúde americano ‘privatizado’ é reconhecido mundialmente como um desastre social e financeiro, assim como o sistema prisional, sendo ambos exorbitantemente caros e eivados de corrupção. O sistema educacional dos EUA agora está determinado a se juntar a eles. O FED é amplamente reconhecido como uma organização criminosa que produz altas e baixas principalmente para enriquecer a si e a seus proprietários, estirpando a classe média americana e de outras nações no processo, extraindo centenas de bilhões de dólares de bolsas públicas e privadas em cada ciclo. O sistema de telefonia móvel nos Estados Unidos é o mais disfuncional, inconveniente e, ainda assim, o mais caro do mundo, administrado por um pequeno oligopólio que dividiu a nação como feudos privados para serem oprimidos e saqueados.

Os financistas americanos e judeus desejam desesperadamente se inserir nos mercados de habitação, nos sistemas de seguridade social, nos sistemas de saúde e educacionais da China e em muitas partes da infraestrutura nacional da China. Todos os itens acima fazem parte das necessidades sociais básicas da China como nação, mas o interesse dos americanos é o mesmo do MTR – ganhar o máximo de dinheiro possível. Mas, como muitos governos ingênuos descobriram para sua consternação, a palavra “privatização” está, na verdade, mal escrita, e a grafia correta é “pirataria”. A privatização de ativos públicos, praticada por banqueiros americanos e outros capitalistas, é apenas um pretexto para transferir ativos governamentais atraentes para investidores privados a preços abaixo do mercado, enquanto transfere as parcelas do passivo privado de volta para o governo. Em outras palavras, privatizar os ativos e lucros e socializar os passivos e perdas. Um estudo breve, mas sério, dos resultados da privatização nos Estados Unidos, ou mesmo em qualquer nação, deve curar a maioria dos chineses dessa doença.

Vamos dar uma olhada como a privatização da infraestrutura funciona na vida real.

Em 1999, a província canadense de Ontário decidiu privatizar um trecho de uma rodovia com pedágio que era na época a rodovia mais movimentada da América do Norte. Ela concedeu um arrendamento de 99 anos da rodovia para um consórcio de corporações internacionais, incluindo controle ilimitado sobre a rodovia e todos os direitos de cobrança de pedágios, por um preço total de cerca de USD 3 bilhões, um valor reconhecido como muito inferior ao valor real da rodovia, documentos comprovando posteriormente que o governo havia gasto USD 100 bilhões desde o início dos anos 1970 apenas na aquisição de terras. O acordo também continha uma restrição que impedia o governo de construir qualquer rodovia próxima que pudesse competir com esta rodovia agora privatizada. Claro, duas coisas aconteceram imediatamente. O consórcio demitiu a equipe e transferiu todos os custos operacionais diretamente para os motoristas, incluindo o de um novo sistema de cobrança eletrônico e fotográfico de identificação automática. O segundo foi que as tarifas aumentaram repetidamente, quase 250% nos primeiros anos. O governo tentou uma ação judicial para restringir esses aumentos, mas a lei e o contrato eram claros: a empresa não precisava de autorização para exercer controle ilimitado sobre a rodovia e seus pedágios.

Quando milhares de queixas amargas sobre os incapacitantes aumentos de pedágio não produziram resultados, o ressentimento finalmente levou os motoristas a se recusarem a pagar as taxas de pedágio, momento em que o consórcio exerceu seu direito contratual de exigir que o governo suspendesse as carteiras de motorista e negasse a renovação das placas de automóveis até que todas as contas dos clientes fossem pagas, apesar da existência de inúmeros erros de cobrança onde muitos motoristas eram cobrados a mais e contas eram enviadas para motoristas que nunca haviam usado a rodovia. Essa rodovia privada se tornou um luxo que poucos podiam pagar, com tantos motoristas a evitando que as artérias vizinhas não conseguiam lidar com o aumento do fluxo de tráfego. O governo se viu então confrontado com a necessidade de construir novas rodovias e alargar outras (a um custo de muito mais de USD 3 bilhões) para acomodar o tráfego que evita essa rodovia agora privada. Infelizmente, a cláusula de não concorrência do contrato original forçará o governo a não apenas pagar o custo das novas rodovias, mas também compensar os proprietários das rodovias privadas por suas perdas de receita.

O governo alegou que um arrendamento de 99 anos era necessário “para garantir que os operadores do setor privado tivessem um lucro razoável e para garantir que os usuários das estradas estivessem protegidos do pagamento de pedágios exorbitantes”. E o resultado? Os motoristas não obtiveram proteção alguma e, na verdade, estão pagando taxas exorbitantes e incapacitantes. Por outro lado, os investidores mais do que recuperaram seu capital em oito ou nove anos e podem esperar mais 90 anos de lucros continuamente crescentes e garantidos. Em 2010, a empresa vendeu uma participação de 10% na rodovia por quase USD 1 bilhão e, no momento em que escrevo, me disseram que a venda de outros 10% estava sendo considerada por mais de duas vezes esse valor. Isso implica em um valor para a rodovia de talvez USD 20 bilhões – e continuamente crescente – o que significa que o governo subestimou a ganância do consórcio e, portanto, o valor daquele arrendamento de “mercado livre”, em pelo menos USD 15 bilhões.

O governo praticamente cedeu uma das partes mais importantes da infraestrutura pública da província, por uma pequena fração de seu custo e valor real, sacrificando o bem das pessoas para beneficiar alguns indivíduos ricos. Não tenho informações sobre quais políticos receberam quanto dinheiro para assinar esse contrato. Nenhuma pessoa pensante pode alegar que isso é do interesse da nação ou do povo, mas isso é o capitalismo e a privatização em sua verdadeira forma. Eu poderia produzir uma lista de centenas desses exemplos. A privatização de aeroportos, ferrovias, educação, serviços médicos e muitos outros elementos de infraestrutura ou serviços sociais seguem o mesmo padrão em todas as nações que sucumbiram a essa ideologia capitalista americana.

A revista The Economist publicou um artigo sobre o sistema de trens de alta velocidade da China, recomendando que o governo chinês privatizasse todo o sistema – vendesse para ricas corporações privadas. A revista afirmou que “a China precisa repensar como gasta dinheiro com ferrovias”, aderindo ao mantra Capitalista Ocidental de que a transferência permanente de riqueza do setor público (o governo e o povo) para o setor privado (grandes corporações e indivíduos ricos) é a “verdadeira democracia”. A The Economist escreveu justificativas pomposas para sua posição, alegando que, na Europa, os operadores ferroviários privados são melhores porque oferecem “uma ampla gama de tarifas e descontos”, aparentemente ignorando o fato de que a China já tem uma infinidade de categorias de trens, classes de viagens e tarifas. Outra afirmação foi que “Com as mãos livres, as ferrovias tendem a espremer mais viagens de seus trens, fornecer um serviço melhor e ganhar mais dinheiro.” Certamente, as operadoras privadas ganhariam mais dinheiro – mas tudo isso às custas do público em tarifas mais altas e serviço reduzido, bem como a perda de incontáveis milhares de empregos.

The Economist afirmou: “A evidência da liberalização ferroviária na América do Norte e na Europa sugere que tais reformas podem realmente reduzir as tarifas.” Esta afirmação é uma mentira absoluta. Se olharmos para a experiência na Europa, no Reino Unido e nos Estados Unidos, os fatos são o contrário. As viagens de trem público tendem a ser muito baratas em grande parte da Europa, mas as tarifas ferroviárias privatizadas no Reino Unido são extorsões, em muitos casos custam mais de dez vezes uma viagem comparável na China. Em 2013, o jornal The Independent fez uma análise provando que a privatização das ferrovias da Grã-Bretanha resultou nas tarifas de trem mais caras da Europa e, longe de eliminar as perdas para os contribuintes, tem retirado dinheiro do erário público a taxas crescentes. Desde a privatização, o governo do Reino Unido tem subsidiado várias empresas privadas que agora possuem os trilhos, trens e infraestrutura, ao valor de cerca de USD 5 bilhões por ano e uma perda pública cumulativa de mais de USD 25 bilhões de dólares, enquanto as tarifas aumentaram quase exponencialmente. Deve ficar claro que os proprietários privados ganharam dezenas de bilhões em lucros enquanto o público sofreu proporcionalmente, mas de acordo com a The Economist, essa assim chamada parceria público-privada tem sido um “ganha-ganha” para todos.

The Economist chegou a afirmar que “a pobreza… poderia ser melhor solucionada com subsídios direcionados”. Em outras palavras, o governo da China poderia tirar milhões de pessoas da pobreza vendendo todo o sistema de trem-bala para corporações privadas e, em seguida, usar esse dinheiro para pagar as passagens de todas as pessoas que não tenham mais condições de viajar de trem. Quando você tem esse tipo de pensamento mágico, quem precisa de Harry Potter? E a afirmação sobre um serviço melhor é uma mentira absoluta. O Reino Unido privatizou seu sistema ferroviário no início dos anos 2000, vendendo toda a sua infraestrutura ferroviária, incluindo trilhos, sinais, a maioria das estações, túneis e passagens de nível, para a Network Rail Company, de propriedade privada, levando a uma infinidade de problemas. No início de 2014, o órgão regulador das ferrovias do Reino Unido propôs multar a Network Rail em mais de USD 100 milhões por sistematicamente falhar em fazer seus trens operarem no prazo. Em 2014, o governo do Reino Unido produziu outra séria indignação pública ao reprivatizar a franquia ferroviária Londres-Escócia, insistindo que o assunto havia sido decidido e “não estava aberto à discussão pública”, isso depois que a linha fora privatizada, tornou-se um desastre completo e teve de ser renacionalizada, após o que retornou quase USD 2 bilhões em lucros aos contribuintes apenas nos últimos anos. Tendo eliminado a disfunção maciça e devolvido a ferrovia à eficiência e lucratividade, os amigos banqueiros do governo queriam tentar outra oportunidade, então os políticos subornados concordaram em revendê-la, mais uma vez muito abaixo de seu valor de mercado. Os críticos reclamaram amargamente da mão pesada do governo e da traição ao público em acelerar esta venda, ignorando tanto a vontade do povo quanto os efeitos catastróficos de outras privatizações ferroviárias no Reino Unido.

Como parte do programa de propaganda capitalista e para mascarar a verdadeira intenção, a The Economist usa o termo “liberalização ferroviária”, o que implica que as ferrovias haviam sido restringidas em alguma forma burocrática ou ideológica irracional e agora estão sendo liberadas, mas essas expressões são deliberadamente enganosas. Na vida real, ‘liberalização’ significa a venda permanente dos ativos de uma nação e o sacrifício do bem público maior em prol do lucro privado. A privatização de outros serviços de infraestrutura, como o abastecimento de água, produziu essencialmente os mesmos resultados em todos os locais do mundo onde isso foi feito, com as tarifas de abastecimento de água muitas vezes aumentando dez vezes em apenas alguns anos. A evidência em todos os lugares é que a privatização destrói o nível do serviço, reduz a escolha, aumenta os custos e usa o público como uma vaca a ser ordenhada. Quase não há exceções a isso. Os EUA privatizaram o fornecimento de eletricidade e água. O resultado? As contas de eletricidade nos Estados Unidos aumentaram mais rapidamente do que a taxa geral de inflação por cinco anos consecutivos, enquanto as tarifas de água triplicaram em cerca de dez anos.

Em 2014, o governo do Reino Unido vendeu seu serviço de correios, o Royal Mail, sob uma enxurrada de acusações que o governo e alguns de seus amigos banqueiros (Lazard e Goldman Sachs; como saberíamos que o Goldman Sachs estaria envolvido?) pressionaram a venda “sem dar a devida consideração à maximização do valor do dinheiro para o contribuinte”. Isso dificilmente é uma surpresa, considerando outras privatizações que o governo do Reino Unido fez, todas indicando um valor extremamente subestimado sobre os ativos vendidos. No caso do Royal Mail, as ações dobraram de preço de mercado quase imediatamente e, quando o Reino Unido privatizou a British Telecom, as ações saltaram quase 90%, ambos indicando uma subvalorização e perda pública substanciais. O consenso geral era que as emissões estavam subvalorizadas em pelo menos vários bilhões de dólares, e criticou-se especialmente o baixo valor atribuído a várias propriedades substanciais no centro de Londres que poderiam ter configurado a maior parte do valor sozinhas. A privatização foi típica porque carrega muitas suspeitas sérias de negociações fraudulentas, suborno e propinas, da mesma forma que a rodovia com pedágio do Canadá. Lazard, a empresa que aconselhou o governo britânico sobre a venda, estava pressionando por um preço de venda de ações de apenas 212 centavos, quando nenhuma outra empresa sugeria nada abaixo de 330, e várias empresas acreditavam que a emissão seria vendida a um preço de mais de 500 centavos. No evento, a emissão foi avaliada em 330, esgotou em poucas horas e quase dobrou de valor no primeiro dia, indicando uma venda extremamente subvalorizada.

Além disso, a Lazard recebeu vários milhões de dólares por seu “conselho” mal-intencionado ao governo, mas fez arranjos para comprar para si uma grande quantidade das emissões, que então descarregou em 48 horas com um lucro de mais de $10 milhões. Algumas outras pessoas conseguiram obter esses direitos especiais de comprar milhões de ações com antecedência, incluindo George Soros – e precisamos perguntar por que ele estaria envolvido. Outra peculiaridade que mereceu muito mais atenção do público do que recebeu foi que, imediatamente antes da venda do Royal Mail, o sindicato estava propondo uma enorme greve nacional, evocando imagens de uma longa paralisação, uma perda substancial de receita e, claro, uma compra muito menos atraente, fazendo com que os investidores desconfiassem das perspectivas da empresa e, portanto, um preço de venda muito mais baixo. Mas imediatamente após a venda de privatização, o Royal Mail resolveu magicamente a disputa com seu sindicato em um acordo de trabalho “que prometia uma nova era de harmonia industrial”. Quão conveniente. O destino sempre vem em nosso auxílio quando é mais necessário. Todo o processo de privatização do Royal Mail simplesmente fede a corrupção, como a maioria delas. Neste, como em todos os outros casos, é realmente preciso seguir o dinheiro.

Existem literalmente centenas de projetos semelhantes com essencialmente os mesmos resultados descritos nos exemplos acima, e há muitos outros que falharam com um custo devastador para os governos envolvidos. Esses casos nunca recebem a devida atenção da mídia.

Em um caso, uma província canadense contratou uma empresa privada para construir e operar uma estação de geração de eletricidade, mas como a construção e outros atrasos continuaram por três anos, por fim cancelou o projeto. Nesse ínterim, a empresa havia tomado dinheiro emprestado de um fundo de cobertura para financiar a construção – com juros de 14% – mas o cancelamento desencadeou uma inadimplência que resultou no governo tendo de pagar $150 milhões em multas ao fundo de cobertura, que havia emprestado apenas $60 milhões e já havia sido totalmente compensado. O fundo de cobertura estava exigindo fundos de penalidades suficientes para igualar um retorno de juros anual de mais de 60% sobre seu investimento de três anos.

Os Estados Unidos privatizaram grande parte de seu sistema penitenciário – o maior sistema penitenciário do mundo – com resultados já esperados. Dez anos atrás, o custo do encarceramento era de cerca de $22.000 por preso por ano; com a privatização, o custo aumentou para $50.000, embora o sistema privado recuse os presos mais doentes e mais caros. “Eles estão escolhendo a dedo”, disse um líder do governo. “Eles deixam os prisioneiros mais caros com os contribuintes e levam os prisioneiros fáceis.” Além disso, os operadores dessas prisões privadas reduziram significativamente todos os serviços prisionais, introduziram uma superlotação extrema e têm acumulado um longo histórico de abusos. Os financistas privados também têm feito lobby assiduamente com os tribunais em muitos estados para impor penas mais severas e sentenças de prisão mais longas, mesmo para delitos menores, porque mais prisioneiros significam mais receita e maiores lucros. Os juízes e tribunais obedeceram, talvez porque muitos juízes e xerifes dos EUA são eleitos e precisam de doações em dinheiro para suas campanhas eleitorais. Os operadores privados dessas prisões gastaram milhões para eleger (e subornar) políticos, policiais, juízes e funcionários dos tribunais que preencherão suas lucrativas prisões, resultando em enormes custos sociais e financeiros.

Hoje, os americanos exercem todas as formas de pressão intensa para forçar a China a abrir totalmente todas as áreas de serviço social para este mesmo mercado livre, sob o fundamento de ser a vontade de Deus que os americanos apliquem suas chamadas ‘melhores práticas’ e talentos únicos em ‘eficiência’ para o eterno benefício da China. Mas os americanos redefiniram ‘eficiência’ para significar ‘maximização do lucro’, definição essa que não tem qualquer relação com o significado real de ‘evitar desperdício’, e cuja maximização é alcançada por meio da demissão de pessoal, corte de serviços e aumento de preços. A China quer um sistema educacional para atender às necessidades futuras dos cidadãos da China e da China como nação, para produzir pessoas educadas de acordo com a própria cultura, tradição e necessidades da China, mas os americanos querem construir e fornecer o sistema educacional da China com o único propósito de se enriquecerem financeiramente. Como isso é compatível com as necessidades da China, e como a China alcançará seu rejuvenescimento e recuperará seu lugar de direito como uma das maiores nações do mundo, se os chineses receberem apenas uma educação americana deficiente, enquanto a infraestrutura educacional do país é projetada apenas para sugar todo o dinheiro do país e colocá-lo nas mãos de alguns americanos gananciosos? Essas perguntas precisam ser respondidas.

No início de 2014, a Caixin publicou um artigo depreciando o sistema de saúde da China, com comentários arrogantes sobre como os hospitais, “apesar de todo o seu trabalho duro”, podem nunca ter lucro. De acordo com a Caixin, “Somente equilibrar as contas… é geralmente o melhor que pode acontecer”. Os autores se alegraram com a ideia de que Pequim estava encorajando “uma abordagem mais orientada para o mercado” para administrar os grandes hospitais do país, em outras palavras, permitindo que proprietários privados lucrassem pesadamente com as doenças do povo chinês. Wei Xin, o CEO da Sinocapistar Investment Holding, uma empresa de investimentos privada, aparentemente ficou extasiado com esse pensamento, dizendo: “Esta política é muito atraente. Os investidores privados logo fatiarão o bolo dos hospitais públicos que está sendo oferecido.” E fatiar os hospitais é exatamente o que farão. Fatiar como um porco. A Caixin estava se regozijando com o “sucesso” do China Resources Pharmaceutical Group em adquirir uma participação de 66% no Hospital Infantil de Kunming, o principal centro de pediatria da cidade, e cujo CEO Zhang Haipeng aparentemente estava se gabando de um aumento de 40% na “receita”. Zhang vê os hospitais públicos como “investimentos sólidos com bom fluxo de caixa, retornos estáveis e potencial de longo prazo”. Bem, bom para ele, mas e o público, os pacientes que precisam usar essa instalação agora lucrativa? Claro, seus custos médicos aumentarão pelo menos na mesma proporção que os lucros de Zhang. De que forma este processo anti-social é bom para os cidadãos de Kunming? É precisamente esse pensamento distorcido que produz a disparidade de renda que todas as nações, exceto os EUA, desejam evitar. Com a venda do Hospital Infantil de Kunming, milhões de famílias pagarão, cada uma, milhares de yuans ao Sr. Zhang, assim eventualmente – e totalmente sem justificativa – transferindo à força bilhões de yuans de milhões de pessoas para as mãos de um ou dois indivíduos. Na privatização da saúde, como neste hospital em Kunming, todas as reivindicações e contra-reivindicações são fumaça e espelhos. A única verdade essencial aqui é que em breve todos em Kunming estarão pagando o dobro do que antes pelo mesmo tratamento médico. Quero que alguém me diga por que isso é bom.

Este é o pior capitalismo americano, porque seu princípio fundamental é privatizar os lucros e socializar as perdas. E isso significa que este hospital de Kunming agora vai sugar o máximo possível de dinheiro daqueles com capacidade de pagar, deixando os 80% mais pobres da sociedade dependendo do governo para assistência médica. E isso significa que os hospitais privados vão drenar as contas bancárias dos que têm dinheiro e vão drenar os cofres do governo para pagar os que não têm dinheiro. Há apenas um vencedor neste cenário – o proprietário privado do hospital. Em qualquer instituição bem administrada, não há muito dinheiro que possa ser economizado aumentando a eficiência, eliminando desperdícios ou despesas desnecessárias, certamente não o suficiente para mudar o cenário de forma mensurável. A maioria das instituições tenta fazer um bom trabalho e não desperdiça imprudentemente. Para um proprietário privado obter lucros com essa instalação, as únicas opções são reduzir os serviços e a qualidade e aumentar os encargos. E isso já está acontecendo.

Como tem sido fácil redefinir palavras, mascarar intenções anti-sociais, se não criminosas, e confundir tanto a mente do público que o preto agora é branco. Chineses demais ficam hipnotizados por essas fantasias capitalistas estrangeiras e aparentemente nunca questionam a origem dessa bizarra nova convicção de que a medida da utilidade de um hospital é sua lucratividade, de que um hospital ganha elogios de acordo com o valor de suas excessivas despesas para o público. Para infraestrutura física e social, o foco deve ser a utilidade pública, não o lucro privado ou alguma definição degenerada de eficiência. A China precisa de cuidados de saúde para o bem do povo chinês, para o bem-estar da nação a longo prazo, e precisa de cuidados de saúde disponíveis e acessíveis a TODOS os cidadãos. De que forma a inserção de uma entidade privada com fins lucrativos ajuda a fazer isso? Não precisamos de uma enxurrada de bobagens ideológicas sem sentido sobre a implementação de gerenciamento “de ponta” e “melhores práticas” que criarão “comunidades vibrantes”, como a AmCham gosta tanto de nos dar. A dura verdade é que o povo de Kunming, como o de Xangai e de muitas outras cidades da China, vai pagar caro por essas práticas americanas virulentamente anti-sociais. No final das contas, essa “liberalização” dos cuidados de saúde da China provará ser o mesmo desastre absoluto que provou ser nos Estados Unidos.

Mas todo o conceito de transformar serviços públicos em instituições com fins lucrativos é uma falácia estúpida, o que um economista chamou de “lucro privado eliminando um bem público”. O governo, o povo, de fato, estão prestando serviços de saúde a si mesmos. Por que eles se sobrecarregariam para obter um suposto lucro e, então, dar esse lucro a um indivíduo? O governo financia o sistema de saúde, como qualquer outro serviço público, com a receita geral obtida com os impostos. Se for necessário mais dinheiro para operar um serviço, ele recorrerá a aumentos de impostos. Ter como alvo os usuários de um sistema de saúde ou de qualquer outro sistema de serviço público é cruelmente anti-social, pois serve apenas para punir aqueles que mais precisam, na verdade aqueles aos quais o sistema foi projetado para beneficiar. Mas a versão distorcida do capitalismo americano quer lucrar com essas necessidades. Não é à toa que os Estados Unidos pagam duas vezes mais por saúde do que qualquer outra nação desenvolvida, mas têm o sistema de saúde mais disfuncional do mundo, onde metade da população não tem cobertura e a outra metade não tem cobertura para muitos tratamentos críticos. Todo o sistema americano é projetado apenas para criar enormes lucros para algumas pessoas, e para fazer isso sangrando o erário público. E é isso que a China quer copiar? Precisamos nos livrar da ideia tola de que só porque você pode ganhar dinheiro com uma coisa, essa é uma razão para fazê-lo.

Em outubro de 2014, a Xinhua informou que a China planeja atrair mais investimento privado em setores-chave da economia por meio de políticas de apoio e um ambiente de investimento “mais justo”. Essas áreas incluirão energia, telecomunicações, usinas hidrelétricas e nucleares, incluindo redes de transmissão, banda larga de internet, navegação por GPS e satélites de sensoriamento remoto, além de agricultura e abastecimento de água e muitas partes da infraestrutura da China. Não sei os detalhes desses planos, mas a intenção e o escopo parecem preocupantes, especialmente se os investidores privados forem estrangeiros. O Reino Unido é um exemplo perfeito de país que perdeu todo o controle sobre grande parte de sua economia, justamente por causa desse programa. Um grande problema é que não existe algo como propriedade “privada” em termos de investimento público generalizado em qualquer uma dessas áreas. Esses investimentos em grande escala são feitos apenas por um grupo seleto muito pequeno de indivíduos extremamente ricos, o mesmo grupo que em última análise controla a propriedade da terra e infraestrutura em todo o mundo, uma condição que apresenta duas considerações muito sérias que parecem inevitavelmente ser ignoradas dentro da excitação ideológica da privatização. A primeira é que o interesse desses grupos ricos são anti-sociais por natureza, sempre diametralmente opostos aos melhores interesses do povo e de uma nação; eles estão interessados em maximizar os lucros de qualquer fluxo de receita e não têm nenhuma preocupação com o bem público ou o bem-estar das pessoas. A segunda é que um senhor potencialmente benéfico – o governo – foi substituído por um segundo senhor, definitivamente hostil, predatório e extrativista por natureza. É fácil ser influenciado pelas palavras bonitas, mas sem sentido, como eficiência, que são usadas para descrever a venda de ativos de uma nação, mas basta ler as palavras e examinar as forças políticas por trás da nova TPP americana para perceber as brutais verdades por trás do investimento privado no estoque de capital de uma nação. Continuo convencido de que a história revelará a invasão do chamado investimento privado em infraestrutura social e de capital como uma das grandes tragédias de nossa era moderna.

É uma atitude perigosa a ser adotado dos americanos e dos financiadores abutres. A securitização da infraestrutura é apenas uma etapa de um grande plano de longo prazo para sequestrarem esses ativos nacionais. Isso tem sido feito muitas vezes ao longo das décadas, mas os governos nacionais parecem incapazes de fazer pesquisas básicas e aprender sobre os perigos. Existem tantos argumentos, baseados no charme da falsa economia, a favor da venda da infraestrutura de uma nação não a um investidor privado, mas simplesmente de listá-la na bolsa de valores. Os argumentos são sedutores – dê ao povo a chance de compartilhar os lucros da infraestrutura, como está acontecendo agora com algumas das ferrovias de alta velocidade da China sendo vendidas por meio de listagens nas bolsas de valores. Mas esses abutres têm 200 anos de prática na manipulação das bolsas de valores de um país. A prática usual é (1) convencer um governo nacional a ‘securitizar’ partes importantes da infraestrutura nacional – como ferrovias de alta velocidade – colocando ações no mercado de ações. Os abutres então (2) inflam o mercado por meio de uma miríade de maquinações há muito comprovadas exitosas, então (3) quebram o mercado e (4) compram as ferrovias listadas por centavos. Se a China não for muito cuidadosa, é para lá que o país está se dirigindo, ao escutar os abutres em vez de seu próprio bom senso.

Em agosto de 2014, James Meek escreveu uma avaliação excelente e cuidadosa dos resultados da privatização no Reino Unido, declarando que “prometeu transformar o Reino Unido em uma ilha de pequenos acionistas. Fracassou: os burocratas sem rosto do Estado foram substituídos por burocratas sem rosto privados (mais bem pagos) – e grandes corporações estrangeiras.” Ele documentou muitos dos pontos que já apresentei, especialmente o que chamou de “outro passo incremental em um programa de 35 anos para transferir o ônus do pagamento da infraestrutura dos ricos para os que lutam”, um sinal do fracasso da “vasta experiência social e econômica realizada com o povo britânico desde 1979: a privatização”. Este processo tão fortemente promovido por Margaret Thatcher é, obviamente, o mesmo processo promovido nos EUA por Ronald Reagan, incitado pelos mesmos governos secretos, e tudo parte da Grande Transformação.

Meek documentou algo que já sabíamos, que esse mesmo processo é exatamente o que foi infligido à Rússia e aos componentes da ex-União Soviética. Lá, sob a bandeira capitalista da caridade, da eficiência e da vontade de Deus, essas nações foram praticamente falidas pelas “figuras cínicas e gananciosas que se moveram para tomar posse das ruínas”, e que não eram sintomas das mudanças, mas sim a essência e propósito delas. Em outras palavras, riqueza privada maciça para poucos, enquanto sofrimento maciço para a população. Meek escreveu que enquanto observava os abutres se banqueteando com a carcaça na Rússia, ele finalmente começou a encontrar os termos para questionar o que havia sido feito nos países ocidentais pelas mesmas pessoas, para ver quão profundamente esses poucos financistas influentes e seus políticos fantoches haviam alterado para sempre a paisagem social, e perceber como tudo era errado. Ele disse que assistiu a “uma onda crescente de capitalismo de consumo, reaganismo, thatcherismo, neoliberalismo, Consenso de Washington” e percebeu que o sistema de livre mercado, que considerava o governo “incompetente por padrão”, estava se enraizando por toda parte.

Ele escreveu: “Não consigo identificar o momento em que tudo azedou para mim. Nos primeiros estágios da desilusão, não parecia óbvio fazer conexões entre os extremos da mercantilização e da privatização na ex-União Soviética e a parcial privatização da economia britânica. Na Rússia, em particular, um pequeno número de indivíduos rapidamente se tornou fantasticamente rico quando assumiu o controle privado de produtores estatais de produtos petroquímicos e metais. Eles foram grotescamente recompensados e o dinheiro que deveria ter sido gasto para reconstruir estradas ou hospitais ou as escolas foram para iates, propriedades em Londres e times de futebol estrangeiros.” No início, ele viu pouca conexão entre esses eventos na ex-União Soviética e aqueles no Reino Unido e no Ocidente, mas lentamente percebeu o quão anti-sociais eram esses desenvolvimentos capitalistas, preocupando-se muito mais com impostos zero do que com a sobrevivência dos aposentados. Ele disse que o mais revelador foi como muitos desses “emissários” do sistema capitalista pareciam acreditar no mito de que tudo de bom no Ocidente foi construído pelo livre mercado. Em suas palavras, “Eles pareciam acreditar que toda a estrutura de suas próprias sociedades modernas ricas – as estradas, as redes de eletricidade, as ferrovias, os sistemas de água e esgoto, os serviços postais universais, as redes de telecomunicações, habitação, educação e saúde – haviam sido criadas por empreendedores individuais movidos pelo desejo de ganho, e que um estado inchado e parasitário entrou em cena, confiscando bens e exigindo coisas de graça.” Sua conclusão, que deveria ser óbvia para todos, foi que o Consenso de Washington era baseado em uma história falsa, a mesma narrativa mítica sobre a qual a maior parte dos Estados Unidos foi fundada. Em outras palavras, todos os lindos contos sobre capitalismo e livre mercado eram mentiras.

No Reino Unido, como nos Estados Unidos e em algumas outras nações, praticamente tudo foi vendido para a “indústria privada” que prometeu manter os preços baixos por meio da eficiência, mas na verdade fez o contrário. Ninguém parecia disposto a contemplar a óbvia inevitabilidade de milhões de trabalhadores sendo cruelmente despedidos em nome da maximização do lucro disfarçada de eficiência. A disposição dos ativos de infraestrutura mais preciosos de uma nação era impessoal e falsamente representada como uma venda de bens excedentes durante tempos de crise financeira, ignorando a perda geral permanente a nações inteiras de pessoas. Mas era tudo mentira. Em alguns países da Europa Ocidental, os governos socialistas mantiveram o controle ou assumiram o controle de grande parte de suas economias – como a China fez – sem nenhuma ameaça ao sistema de governo ou às liberdades individuais ou felicidade. Economias socialistas que se recusavam a despojar seu povo dos bens da nação provaram ser tão ricas, felizes, bem-sucedidas – e eficientes – como foram aquelas economias capitalistas que venderam todos os seus ativos aos abutres a preços de liquidação. Não só isso, o público socialista provou estar muito melhor devido à ausência da ganância maligna. Meek percebeu que esse ideal fascista de capitalismo de estado, que é o que os Estados Unidos são hoje, poderia facilmente se tornar uma monstruosidade corporativa se empanturrando não apenas de contas bancárias individuais, mas de saques ao erário público.

Meek afirma que em suas investigações sobre a privatização, tudo foi um fracasso, sem nenhum dos benefícios prometidos aparecendo para o povo e apenas alguns poucos indivíduos desfrutando de toda a riqueza coletada da nação. Um dos principais resultados da privatização, como afirmo repetidamente, é uma disparidade de renda enormemente crescente, pobreza em massa de um lado, equilibrada por riqueza maciça nas mãos de uns poucos infinitesimais na outra ponta. Se fosse verdade que as empresas públicas são menos eficientes, a resposta seria comercializá-las, não privatizá-las, como Meek finalmente percebeu. Ele também descobriu, como muitos de nós, que as empresas privadas raramente – se calhar nunca – são mais competentes ou eficientes do que as estatais, a principal diferença é que as empresas estatais não são tão insanamente impulsionadas a sugar até o último dólar de uma economia a ponto de, como o Citibank, espancar até a morte os clientes inadimplentes. E apesar de todas as palavras bonitas, a privatização nunca produziu custos mais baixos, melhores serviços ou mais opções para os consumidores. Nunca fez nada além de encher os bolsos de uns poucos. O exame atento das privatizações revelará quase inevitavelmente fracassos gritantes para a nação, da mesma forma que meu exemplo acima da província canadense de Ontário em seu esquema de privatização de rodovias. Inevitavelmente, o povo perde e os abutres ganham, especialmente às custas de todos aqueles que dependem do governo.

Meek concluiu seu ensaio dizendo: “O que pensamos saber está errado.” Seus exames, assim como os meus, revelam que os gastos do governo foram reduzidos, assim como os impostos para os muito ricos, mas isso foi mais do que compensado por impostos ocultos sobre toda a população, que têm efeitos cada vez mais desastrosos à medida que descemos na escala de renda. A privatização, na prática, produz uma nova invasão do que são, na verdade, impostos cobrados da população, mas não identificados como tal. Os governos precisam repor a receita perdida com as reduções de impostos para os ricos e, portanto, atacam a população em geral com coisas como novos impostos sobre vendas que servem para esconder o dreno massivo na economia causado pelos abutres da privatização. Não é segredo que o público em qualquer nação é simplesmente um fluxo de receita para as elites ricas que povoam os fundos abutres, os chamados “investidores” que engolem a infraestrutura de uma nação. Ao que sempre se seguem serviços precários e preços mais altos, assim como demandas dos investidores por subsídios do governo para inflar ainda mais seus lucros.

É necessário observar claramente que as despesas involuntárias são um imposto sobre a população. Considere as taxas bancárias, para transações simples, para o uso de um caixa eletrônico e demais. Os bancos já obtêm lucros muito saudáveis com o uso livre de nosso dinheiro, a miríade de “taxas” sendo impulsionada apenas pela ganância. Isso significa que os bancos em todas as nações têm o poder de tributar a população com ainda menos preocupação do que o próprio governo. Os banqueiros não precisam apelar para os eleitores nem ter apoio público para suas ações. Utilidades privadas, instituições educacionais, instalações de saúde e muito mais, estão todas cobrando impostos de uma população, independentemente de sua necessidade de receita. A iniciativa privada não tem necessidade de considerar a natureza filosófica da educação ou saúde pública, nem do fornecimento de água ou eletricidade. Não tem obrigação de considerar os pobres ou menos favorecidos e, principalmente, os ignora em serviços obrigatórios para a sobrevivência, como saúde e utilidades. Na verdade, quanto mais fraco for o setor da população, mais valioso para um “investidor privado”. Os ricos sempre podem se sustentar pagando despesas que são triviais para eles, enquanto o resto da sociedade é sugado até a última gota pelo ímpeto maligno de maximizar os lucros.

Isso é parte do problema que os americanos têm com as estatais chinesas, ofendendo-se grandemente com sua aparente falta de comportamento capitalista predatório, depreciando-as como “maximizadores de receita, na melhor das hipóteses, em vez de maximizadores de lucro”. Em Xian, visitei uma escola com um dos melhores campi do mundo, hectares de grama verde, uma piscina olímpica, jardins floridos, lindos condomínios e residências urbanas para professores e alunos. A escola foi construída com os lucros excedentes de uma empresa de tabaco estatal local que queria doar algo para a comunidade. A empresa não apenas construiu a escola, mas também paga os custos operacionais anuais. Essa atitude de uma empresa deixa os americanos sem palavras. O jeito americano seria alavancar esses lucros excedentes para comprar, falir ou matar todos os outros concorrentes no país. E depois de aumentar seus lucros ao custo de uma enorme ruptura social, com milhões de desempregados e enormes despesas de bem-estar social jogadas ao governo, os americanos criariam uma campanha de relações públicas em que doariam uma pequena quantia em dinheiro para alguma instituição de caridade para exibir sua generosidade e superioridade moral em relação ao mundo. Um exemplo semelhante são as estatais da China que constroem residências de baixo custo. Os americanos levantam todas as formas de condenação moral e filosófica de tais práticas, praticamente alegando que é contra a vontade de Deus que um governo forneça serviços públicos ou bens sociais a preço de custo, quando uma empresa americana, se permitida entrar na arena, poderia colher bilhões em lucros. Acredito que o jeito chinês é melhor.

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Larry Romanoff é um consultor administrativo e empresário aposentado. Ocupou cargos executivos seniores em empresas de consultoria internacionais e foi proprietário de uma empresa internacional de importação e exportação. Tem sido professor visitante na Universidade Fudan de Xangai, apresentando estudos de caso em assuntos internacionais para classes sênior de MBA executivo. O Sr. Romanoff mora em Xangai e atualmente está escrevendo uma série de dez livros em geral relacionados à China e ao Ocidente.

Larry Romanoff é um dos autores que contribuíram para a nova antologia COVID-19 de Cynthia McKinney, “When China Sneezes“.

A fonte original deste artigo é Moon of Shanghai

Copyright © Larry RomanoffMoon of Shanghai, 2020

Tradutor: Leonardo

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