História de como os neoconservadores tomaram os EUA (Parte 3)

10/5/2017, Paul Fitzgerald e Elizabeth Gould, in Truthdig e The Vineyard of the Saker

Parte 3/4 – Como a CIA inventou uma falsa realidade ocidental para sua “Guerra não convencional”[6]

Ver também
Parte 1/4 – Imperialismo norte-americanoempurra o mundo para um inferno dantesco (Blog do Alok)

Parte 2/4 – Como os neoconservadores promovem a guerra, maquiando os livros (Blog do Alok)

Parte 4/4 – Estágio final da tomada dos EUA pelas elites maquiavélicas: de Trotsky a Burnham, de Burnham e Maquiavel ao neoconservadorismo: fecha-se o ciclo do imperialismo britânico (Blog do Alok)

 

A ideologia estranha, psicologicamente conflitiva e politicamente divisionista que se conhece como Neoconservadorismo [ing.Neoconservatism, de onde a forma reduzida “neocons“] pode reivindicar para ela muitos padrinhos nos EUA. Irving Kristol, pai de William Kristol, Albert Wohlstetter, Daniel Bell, Norman Podhoretz e Sidney Hook são nomes que logo vêm à mente, e há muitos outros. Mas, seja em teoria seja na prática, o título de pai fundador da agenda neoconservadora nos EUA – de guerra permanente [impossível não pensar no conceito de “revolução permanente” de Trotsky; para conhecê-lo nos próprios termos do autor-criador leia aqui (NTs)] – que rege o pensamento da defesa e das políticas exteriores dos EUA hoje cabe com mais propriedade a James Burnham.

Seus escritos nos anos 1930s acrescentaram um lustro de refinado intelectual de Oxford ao Partido dos Trabalhadores Socialistas; e, como conselheiro muito próximo do revolucionário comunista Leon Trotsky e de sua IV International, Burnham aprendera na fonte as táticas e estratégias de infiltração e de subversão política. Burnham revelou-se no papel de “intelectual trotskista”, sempre ativo no serviço de burlar os inimigos políticos em movimentos marxistas concorrentes, trabalhando para minar lealdades e capturar as cabeças mais talentosas.

Em 1940 Burnham renunciou a todas as formas de compromisso com Trotsky e com o marxismo, mas levaria com ele, para a nova vida, as táticas e estratégias para infiltração e subversão; e inverteria a direção do materialismo dialético, como método, fazendo-o operar contra os antigos companheiros.

Seu livro de 1941 The Managerial Revolution [A revolução dos Gerentes] lhe traria fama e o fixaria como profeta político astuto,[7] embora não muito acurado. Nesse livro, Burnham faz a crônica da ascensão de uma nova classe de elite tecnocrática. O livro seguinte, The Machiavellians, confirmaria seu movimento já distanciado do idealismo marxista, como um realismo muito cínico e não raras vezes cruel, crente aplicado do fracasso final inevitável da democracia e da ascensão dos oligarcas.

Em 1943 Burnham reuniria tudo isso num memorando para o Gabinete de Serviços Estratégicos dos EUA [ing. US Office of Strategic Services, OSS], pelo qual todo seu trotskismo e anti-stalinismo encontrariam caminho aberto direto para o pensamento daquela agência.

E em seu livro de 1947, The Struggle for the World [A disputa pelo mundo], Burnham expandiria aquela sua dialética confrontacional e adversária contra a União Soviética ATENÇÃO e a converteria em política apocalíptica de guerra sem fim, permanente.

À altura de 1947 a conversão de James Burnham, que passara de comunista radical a conservador da Nova Ordem Mundial Norte-americana estava completa. Em Struggle for the World arrematava-se uma “Virada Francesa” [French Turncontra a revolução comunista permanente de Trotsky, que seria convertida em plano de batalha permanente por um império global norte-americano.

Para completar a ‘dialética’ de Burnham só faltava um inimigo permanente. Para construí-lo seria indispensável uma sofisticada campanha de propaganda psicológica, para manter vivo, por várias gerações de norte-americanos, o ódio à Rússia e aos russos.

A ascensão dos Maquiavelian

Em 1939 Sidney Hook, colega de Burnham na NYU e também filósofo marxista havia ajudado a fundarm um Comitê pela Liberdade Cultural [ing. Committee for Cultural Freedom] anti-Stálin para uma campanha contra Moscou. Durante a guerra, Hook também abandonara o marxismo e, como Burnham, de algum modo, logo se veria acolhido calorosamente na ala direita da comunidade de inteligência dos EUA durante e depois da 2ª Guerra Mundial. Hook foi visto pelo Partido Comunista como traidor e “réptil contrarrevolucionário” por suas atividades e em 1942 já fornecia informações ao FBI sobre os seus camaradas.

Convencer as elites europeias, empobrecidas e sem poder, das virtudes da cultura dos EUA era essencial para erguer o império norte-americano depois da guerra, e os primeiros escritos de Burnham forneceram a inspiração a partir da qual seria construída uma contracultura de “Liberdade”. Veteranos de incontáveis lutas internas entre os trotskistas, ambos, Burnham e Hook tinham importante experiência nas artes da infiltração e da subversão, e com o livro “Os Maquiavélicos: Defensores da Liberdade” [ing.The Machiavellians: Defenders of Freedom] de Burnham como plano e guia, os dois puseram-se imediatamente a pintar com as cores mais sinistras tudo que os soviéticos dissessem ou fizessem.

Como Burnham expôs muito articulada e claramente no livro Machiavellians, sua versão de Liberdade significava qualquer coisa menos a liberdade intelectual ou as liberdades definidas na Constituição dos EUA. Ela só significava, realmente, conformidade e submissão. A Liberdade, para Burnham, aplicava-se só aos intelectuais (os Maquiavélicos) dispostos a dizer ao povo a dura verdade sobre as realidades nada populares que o povo enfrentava. Essas verdades serviriam como chave de entrada para um novo bravo novo mundo de uma classe de ‘administradores’, de gerentes, que passaria a se dedicar a negar aquela democracia que eles acreditavam que já possuíssem. Como Orwell observou falando das crenças dos maquiavélicos de Burnham, em seu ensaio de 1946 Second Thoughts, “o Poder pode em alguns casos ser obtido ou mantido sem violência, mas jamais sem fraude, porque a fraude é indispensável para manobrar as massas (…)”.

Em 1949, a CIA estava ativíssima no business de mentir às massas, apoiando secretamente a chamada esquerda não comunista, e agindo como se ela fosse apenas um ramo brotado espontaneamente de uma sociedade livre. Ao converter a esquerda e pô-la a serviço da expansão do próprio império, a CIA estava aplicando uma “Virada Francesa” dentro de casa, pode-se dizer, e ali mesmo recolhendo os melhores e mais brilhantes. A criação do Estado de Segurança Nacional, em 1947, institucionalizou o movimento. Com a ajuda do Departamento de Informação e Pesquisa [ing. Information Research Department, IRD] britânico, aCIA recrutou ex-agentes chaves dos soviéticos treinados antes da guerra, que haviam administrado, a serviço de Moscou, grupos não comunistas de frente, e os haviam posto também a serviço de Moscou.

Como Frances Stoner Saunders escreve em seu livro A Guerra Fria Cultural [The Cultural Cold War], “aqueles ex-propagandistas a favor dos sovietes foram reciclados, lavados e desinfetados até que não restasse neles nenhuma nódoa de comunismo, e acolhidos pelos estrategistas do governo, que viam no contato com eles uma oportunidade irresistível para sabotar a máquina soviética de propaganda que aqueles mesmos agentes haviam um dia feito operar.”

A própria CIA admite que essa estratégia de promover a esquerda não comunista se tornaria o fundamento teórico das operações políticas da Agência contra o comunismo ao longo das duas décadas seguintes. Mas a guerra cultural sem limites contra o comunismo soviético começou logo, a pleno vapor, em março de 1949, quando um grupo de 800 destacadas figuras literárias e artísticas reuniram-se no Hotel Waldorf em New York para uma conferência “Cultural e Científica” patrocinada pelos soviéticos, que pregaria a paz. Ambos, Sydney Hook e James Burnham já estavam ativamente envolvidos em recrutar novos agentes para se contrapor aos esforços para influenciar a opinião ocidental, do Gabinete Comunista de Informação de Moscou [ing. Communist Information Bureau’s (Cominform)]. Mas a conferência no Hotel Waldorf caiu sobre eles como presente inesperado e oportunidade para os mais sujos do arsenal de truques sujos da dupla.

Manifestantes organizados pela ala direita de uma coalizão de grupos católicos e a Legião Norte-Americana cercaram os convidados quando chegaram. Freiras católicas puseram de joelhos a rezar pela alma dos ateus comunistas presentes. Reunida numa suíte nupcial no 10º dandar do hotel, uma gangue de ex-trotskistas e ex-comunistas liderada por Hook interceptou a correspondência da conferência, comandou os releases ‘oficiais’ para a imprensa e distribuiu panfletos desafiando os conferencistas a assumir o próprio passado comunista.

No final, a conferência virou um teatro do absurdo. Hook e Burnham a usariam para convencer Frank Wisner no Gabinete de Coordenação Política da CIA, a não deixar que aquela chama se apagasse e a pôr na estrada aquele mesmo show.

O Congresso pela Liberdade Cultural: por bem ou por mal[8] 

Confiante no poder não abalado da IV Internacional, o evento seguinte aconteceu dia 26/6/1950 no Palácio Titania em Berlin ocupada. A partir sempre do conceito de Hook de 1939 para um comitê cultural, o 14º item do “Manifesto Liberdade” emitido pelo Congress for Cultural Freedom ordenava que todos trabalhassem para identificar “Ocidente” e “Liberdade”. E dado que tudo que tivesse a ver com o Ocidente passou então a ser dito livre, simultaneamente tudo que tivesse a ver com a União Soviética passou a ser dito não livre.

Organizada por Burnham e Hook, a delegação dos EUA reunia o crème de la créme dos intelectuais norte-americanos do pós-guerra. As passagens para Berlin foram pagas pelo Gabinete de Coordenação Política de Wisner, que se serviu de organizações de fachada e pelo Departamento de Estado que ajudou a viabilizar a viagem e pagou despesas e publicidade. Segundo o historiador da CIA Michael Warner o patrocinador da Conferência consideou muito bem gasto aquele dinheiro, e um representante do Departamento de Defesa definiu o evento como “guerra não convencional da melhor qualidade.”

Burnham funcionou como conexão criticamente importante entre o gabinete de Wisner e a intelligentsia movendo-se sem dificuldade da extrema esquerda à extrema direita.

Burnham percebeu que o Congresso seria lugar ideal do qual falar não apenas contra o comunismo, mas também contra a esquerda não comunista e levou muito a conjecturar se suas ideias não seriam tão daninhas para a democracia liberal quanto o próprio comunismo. Segundo Frances Stoner Saunders, membros da delegação britânica acharam que a retórica que se ouvia no Congresso podia ser sinal terrivelmente preocupante do que estava por vir.

Hugh Trevor-Roper ficou horrorizado com o tom de provocação (…)

Houve um discurso, de Franz Borkenau que lhe pareceu’muito violento, de fato quase histérico. Ele falou em alemão, e lamento dizer que conforme o ouvia falar e ouvia as vozes e gritos de aprovação das grandes massas, senti, ora… que eram as mesmas pessoas que sete anos atrás provavelmente berravam denúncias contra comunistas e o comunismo saídas diretamente do Dr. Goebbels no Sports Palast. E senti que… Com que tipo de gente, afinal, estamos sendo identificados? Para mim, esse foi o maior choque. Houve um momento durante o Congresso que senti que nos mandavam seguir Belzebu, para conseguir derrotar Stalin’.”

O Congresso pela Liberdade Cultural não precisou de outro Belzebu, porque já contava com um, sob a forma de Burnham, Hook e Wisner, e à altura de 1952 a festa só começava. Burnham trabalhou incansavelmente para Wisner, legitimando o Congresso como uma plataforma para os Maquiavélicos, ao lado de ex-comunistas e até de nazistas, dentre os quais o general alemão SSGeneral Reinhard Gehlen e sua unidade de inteligência do Exército Alemão que fora incorporada intacta à CIA depois da guerra.E. Howard Hunt, o ‘encanador’ que adiante trabalharia no edifício Watergate, já famoso por seus muitos truques sujos a serviço da CIA, lembra de Burnham em suas memórias: “Burnham era consultor da OPC para virtualmente qualquer assunto que nos interessasse (…) Tinha muitos contatos na Europa e, graças ao seu passado trotskista, era como uma autoridade em tudo que tivesse a ver com com partidos comunistas nos EUA e pelo mundo, e organizações de frente.”

Em 1953, Burnham foi convocado por Wisner para ampliar a luta, além do combate aos comunistas, e ajudar a derrubar o governo democraticamente eleito de Mohammed Mossadegh em Teerã, porque Wisner entendia que o plano carecia de “um toque de Maquiavel”.

Mas a maior contribuição de Burnham como “maquiavélico” ainda estava para começar. O livro dele, The Machiavellians: Defenders of Freedom viria a se tornar o manual da CIA para promover a substituição dos valores da cultura ocidental por uma doutrina alternativa, de ideias mal costuradas de conflito infinito, num mundo governado por oligarcas, que adiante escancararia as portas de um Inferno horrendo, do qual não haveria retorno. [Continua]