John Helmer — Políticas anti-Covid-19, e não há outras: Sigam a China. Sigam a Rússia. Não sigam os EUA

30/3/2020, John Helmer, Dances with bears, Moscou

(tradução automática revista por Amigos do Brasil)


“Putin é o único chefe de Estado que propõe tributar ricos para ajudar a custear parte dos gastos com a política anti-Covid-19”.
_____________________


“A prioridade imediata é impedir a rápida disseminação desta doença” – disse o presidente Vladimir Putin (imagem de abertura, à esq.) em seu pronunciamento oficial sobre o vírus Corona, semana passada.

Este é o ponto sobre o qual, pelo menos por enquanto, não há discordância. Mas o quão restritivas para a economia devem ser as medidas anticontágio e a que custo, comparado ao custo do impacto do vírus na vida e na morte, é tema para debate considerável, na Rússia como em qualquer outro lugar. Esse é o ponto que Putin evitou. E não está só, entre os chefes de estado ou de governo no resto do mundo. Qual, então, a diferença entre Putin e todos os demais?

“Nossa tarefa mais crucial é garantir a estabilidade no mercado de trabalho e evitar o aumento do desemprego”, acrescentou Putin na fala de 25 de março, anunciando uma combinação de pequenas medidas de bem-estar social e compensação de emprego, com isenção de impostos e adiamento de empréstimos para empresas e apoio do Banco Central a “empréstimos estáveis para a economia real, inclusive por meio de garantias e subsídios do Estado”

Falando diante de uma parede lisa, na qual só se viam da nação, não do Kremlin nem da presidência, o presidente Putin começou seu discurso sobre o vírus, com um abrir os braços e levantar os ombros [‘aí está. Temos de enfrentar’]. Foi fala informal, quase como o presidente dos EUA tentou. Analistas norte-americanos e britânicos ‘interpretaram’ que Putin “parecia menos no comando do que o habitual”. Confundiram estilo e substância; ao se basearem nas especulações das redes sociais russas sobre a saúde de Putin, os tais ‘analistas’ entenderam errado o estilo e a substância.


A reunião subsequente do primeiro-ministro Mikhail Mishustin com seu “Presidium do Conselho de Coordenação do Governo para controlar a ocorrência de novos caos de infecção por coronavírus” em 27 de março definiu as políticas anticontágio – especialmente em Moscou, onde se concentram 2/3 dos casos registrados – como esforço para mostrar que a mobilização para fornecer kits de teste e tratamento será mais do que compatível com a demanda de tratamento para casos que não param de surgir. Essa é a estratégia antissurto, seguindo o modelo chinês. A mensagem é que não haverá soluções à italiana ou à espanhola na Rússia. Tampouco haverá falhas no lado da oferta – não faltarão máscaras, testes, ventiladores, camas de terapia intensiva – como há no Reino Unido, EUA e França. Dizer isso de forma bem explícita é política projetada para combater a confusão que se alastraria pela linha de comando de cima abaixo, e para conter o pânico na população.

ImagemO primeiro-ministro que preside o Comando Covid-19 com o primeiro vice-primeiro-ministro Andrei Belousov à sua direita, o prefeito de Moscou Sergei Sobyanin à sua esquerda e, em seguida, em sequência, Mikhail Murashko, ministro da Saúde (2º, esq.) e Anna Popova, diretora do Rospotrebnadzor, ambos médicos. À direita, o ministro das Finanças Anton Siluanov.

Mishustin referiu-se aos cálculos do governo para testes e tratamentos rápidos, de acordo com o plano estadual já elaborado por ministros que trabalharam com o primeiro vice-primeiro ministro Andrei Belousov, que foi o principal assessor econômico de Putin até Mishustin ser indicado em meados de janeiro.

Na reunião do gabinete de Mishustin, o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, disse que “calculamos o número necessário de leitos hospitalares para cada região [da cidade]. Estipulamos requisitos claros para edifícios e hospitais que atenderão pacientes com coronavírus: o número de respiradores que eles usam”. Devem ter unidades de terapia intensiva, suprimento de oxigênio etc., bem como requisitos gerais para edifícios, pessoal e equipamento. Todas as regiões receberam esses exigências, conforme suas instruções. Acredito que a maioria dos hospitais já esteja trabalhando ativamente nisso”.

Putin estivera com Sobyanin dois dias antes e, acompanhado pelo prefeito e pelo ministro da Saúde, visitou o Hospital Kommunarka, onde recebeu informações de um dos principais formuladores de políticas médicas no momento, Denis Protsenko.

Imagem (da esq. para a dir.): Denis Protsenko, médico-chefe do Hospital Clínico da cidade nº 40; o presidente Putin; o prefeito Sobyanin. Também na sala de reuniões estavam a vice-primeira-ministra Tatiana Golikova, o ministro da Saúde Mikhail Murashko e a diretora do Rospotrebnadzor, Anna Popova.

“Do ponto de vista médico”, disse Protsenko a Putin, “existem basicamente dois cenários possíveis no momento: o asiático em que a propagação do vírus desaparece rapidamente; e o italiano com taxa de infecção crescente. Como médico, anestesista e pronto-socorrista, não só como médico-chefe de uma clínica, acredito que é essencial trabalharmos [para evitar] o cenário italiano. Se um dia tivermos de enfrentar grande aumento de infecções, e Moscou já está se movendo nessa direção, teremos meios para converter este hospital para acomodar os doentes. Nesse exato momento, estamos prontos para direcionar 190 de 606 leitos, para unidades de terapia intensiva. Estamos retirando os ventiladores pulmonares do armazenamento e instalando-os, para que esses 600 leitos possam resultar em rápida ampliação da clínica intensiva de atendimento que reúne especialistas altamente competentes de toda a cidade. Com isso evitamos os problemas do modelo italiano.

Se mudarmos repentinamente para o cenário chinês ou coreano e tudo terminar em abril ou maio, acho nossos médicos ficarão felicíssimos. Ainda assim, acho que precisamos estar prontos para enfrentar o pior cenário”.

O registro do Kremlin também revela que Protsenko tem trabalhado com médicos e planejadores chineses em terapias de tratamento cuja eficácia os chineses testaram, à medida que a gravidade dos casos de infecção aumenta. “A oxigenação por membrana extracorpórea (Extracorporeal membrane oxygenation, ECMO) é uma tecnologia que voltou para nossas UTIs, das salas de operações, após o surto de gripe suína. A cidade possui capacidade suficiente de ECMO e um centro de ECMO foi instalado em um de nossos hospitais. Hoje, nosso departamento reuniu-se para uma mesa redonda com nossos colegas chineses. Informaram q dessa vez, diferentemente da gripe suína, a ECMO não foi muito usada no hospital em que trabalharam, com apenas 11 casos de ECMO em um total de 6.000 pacientes”.

Há mais de um mês, em meados de fevereiro, houve um comunicado semioficial de Pequim, segundo o qual “especialistas chineses, com base no resultado de ensaios clínicos, confirmaram que o fosfato de cloroquina, um medicamento antimalárico, tem um certo efeito curativo sobre a nova COVID-19). Os especialistas sugeriram “por unanimidade” que o medicamento seja incluído na próxima versão das diretrizes de tratamento e aplicado em ensaios clínicos mais amplos, o mais rápido possível – disse em entrevista coletiva Sun Yanrong, vice-chefe do Centro Nacional de Desenvolvimento da Biotecnologia da China, do Ministério de Ciência e Tecnologia (MOST)”.

Assim, os chineses acabaram com a amarga controvérsia médica e política na França sobre a eficácia da cloroquina no tratamento de pacientes na unidade de terapia intensiva (UTI), que também provocou pânico e levou à compra desenfreada de cloroquina na França e na Suíça. A discussão, a favor e contra Didier Raoult, principal promotor da terapia com cloroquina na França, pode ser acompanhada aqui e aqui.

A cloroquina é uma das várias terapias que tem sido testadas e aplicadas na China; não é prioritária, muito menos é protocolo obrigatório. Fonte médica chinesa comenta: “A azitromicina e outros antibióticos podem ser usados para o tratamento de infecções por bactérias potencialmente sobrepostas. O principal tratamento bem-sucedido até agora, na China, é tratamento de suporte: remova as secreções excessivas nos pulmões e garanta oxigenação adequada. Os princípios seriam medidas de suporte, além de fortes agentes anti-infecciosos e anti-inflamatórios”.

Protsenko e outras fontes de Moscou se recusam a dizer se há alguma divergência entre os especialistas médicos russos e o Ministério da Saúde sobre as terapias que estão administrando nos hospitais russos. Não há qualquer sinal de discussão sobre a cloroquina na Rússia.

A visita de Putin ao Hospital Kommunarka é notável em termos internacionais: nenhum chefe de governo ou estado da Europa ou da América do Norte fez o mesmo. Putin vestiu equipamento de proteção e recebeu instruções detalhadas sobre políticas médicas em um centro de tratamento. Além de Putin, só Jinping, dentre os líderes mundiais, visitou um hospital (imagem de abertura, à dir.). Dia 10 de março, esteve no Huoshenshan, hospital pré-fabricado em Wuhan, construído em dez dias.

 Source: https://www.youtube.com/


O presidente Donald Trump fez outro tipo de aparição pública (imagem principal, abaixo). Em 28 de março, fez um discurso na base da Marinha dos EUA em Norfolk, Virgínia, em frente ao navio-hospital da Marinha, USNS Comfort. “Muito honrado por estar na Estação Naval de Norfolk”, disse ele, “a maior base naval do mundo e lar da frota mais poderosa que já navegou nos mares. Acabei de passar por alguns dos mais belos e, francamente, dos mais altamente letais navios que já vi na minha vida, e existem muitos deles. E eles estão em melhor forma agora do que estiveram por muitas, muitas décadas, com o que estamos fazendo”.

Trump falou de um navio-hospital para Nova York e outro para a Califórnia. Também prometeu fornecer hospitais temporários construídos pelo Exército, além de “11,6 milhões de respiradores N95, 26 milhões de máscaras cirúrgicas, 5,2 milhões de escudos faciais – e muitas mais estão sendo produzidas, das peças que acabei de citar; temos milhões e milhões de novos itens médicos sendo fabricados enquanto falamos, e já compramos – 4,3 milhões de aventais cirúrgicos, 22 milhões de luvas e 8.100 ventiladores”.

Esse foi um plano militar feito pouco antes de requerido, de acordo com o Ato de Produção de Defesa de 1950; havia sido promulgado para defesa civil e mobilização de fábricas no início da Guerra da Coréia. Em termos atuais, Trump está seguindo o modelo Rússia-China. Mas o presidente não comentou o quanto os EUA estão atrasados; por exemplo, após treze anos de esforços do governo dos EUA para desenvolver ventiladores de baixo custo e fáceis de usar, nenhum foi até hoje produzido e entregue. Trump também tuitou a favor da terapia com cloroquina.

O governo britânico permaneceu onde sempre esteve – mas não antes de o Public Health England (PHE) ter emitido um comunicado, dia 19 de março de 2020, segundo o qual “COVID-19 não é mais considerado Doença Infecciosa de Graves Consequências (ing. HCID) no Reino Unido… Mas agora, quando já se sabe mais sobre COVID-19, os órgãos de saúde pública do Reino Unido analisaram informações atualizadas sobre o COVID-19 com base nos critérios do HCID do Reino Unido e mandaram alterar vários recursos; há mais informações disponíveis sobre as taxas de mortalidade (de modo geral baixa), maior conhecimento clínico e um teste laboratorial específico e sensível, cuja disponibilidade continua a aumentar”.

A lista britânica de Doenças Infecciosas de Graves Consequências, acordada entre a Public Health England (PHE) e o Serviço Nacional de Saúde (NHS), publicada ao mesmo tempo, é um ranking de taxas de mortalidade muito mais altas que o Covid-19; “alta consequência” não significa alto número de infectados, infecção, mas alta proporção de mortos em relação ao número de doentes.

Source: https://www.gov.uk/

Esta desclassificação do Covid-19 foi oficialmente apoiada pelo principal consultor científico do governo Patrick Vallance, o diretor médico Chris Witty e Dominic Cummings, consultor principal do primeiro-ministro. “Sob a modelagem inicial de Sir Patrick”, foi noticiado na semana passada, “a doença foi controlada, de modo que se manteve administrável pelo NHS [Serviço Nacional de Saúde], tendo atingido um pico no início do verão.

Depois disso, graças à imunidade da população, a doença terminaria e não se repetiria em nenhuma escala no próximo inverno. Esse foi o modelo que informou o primeiro orçamento do chanceler Rishi Sunak em 11 de março, que teve um impacto econômico relativamente curto e acentuado neste verão, depois uma recuperação. Na época, um pacote de ajuda de 12 bilhões de libras era visto como generoso; alguns dias depois foi visto como dolorosamente inadequado”.

Quando o anúncio do PHE/NHS foi publicado, não era mais a política do primeiro-ministro Boris Johnson. Ele já fora convencido pelo relatório do Imperial College, “Impacto das intervenções não farmacêuticas (NPIs) para reduzir a mortalidade por COVID19 e a demanda de assistência à saúde”, que o governo encomendara. Assim o Reino Unido foi jogado no modelo italiano para o contágio do Covid-19; uma onda de casos graves além da capacidade do sistema hospitalar, não administrável; e “alta consequência”, quer dizer, alta taxa de mortalidade.

Manchete do Financial Times, noticiando o estudo do Imperial College, em 17 de março. Referindo-se à política do PHE / NHS, “cerca de 250.000 pessoas teriam morrido no Reino Unido se tivesse sido adotada a estratégia anterior do governo para lidar com a crise do coronavírus, ainda que o serviço de saúde estivesse de acordo com o que recomendam os pesquisadores do Imperial College”. Para o resumo do relatório do Financial Times, leia este artigo. O argumento da mitigação é ativamente promovido na imprensa britânica e na mídia alternativa em todo o mundo, com base em informações sobre assintomáticos, doentes curados, baixas taxas de mortalidade e a teoria de que o vírus Corona não seria pior que ‘uma gripe’ sazonal.

Por exemplo: no Reino Unido;  na AlemanhaItáliaSuécia; e no resumo global. Matéria assinada por um médico britânico publicada em Private Eye, dia 20 de março, concluiu que, de acordo com o Escritório Nacional de Estatísticas do Reino Unido, “as mortes são realmente menores esse ano [até o final de fevereiro] do que a média semanal nos cinco anos anteriores. Gosto de pensar que é a lavagem das mãos”.

O relatório do Imperial College de 20 páginas pode ser lido aqui. A recomendação, que a política de estado passasse, de política de mitigação, para política de supressão.


“Duas estratégias fundamentais são possíveis: (a) mitigação, que se concentra em desacelerar, mas não necessariamente em impedir a propagação da epidemia – reduzindo o pico demanda de assistência médica e, ao mesmo tempo, proteger, da infecção, quem tenha risco maior de doença grave; e (b) supressão, que visa a reverter o crescimento da epidemia, reduzindo o número de casos a níveis baixos e mantendo a situação indefinidamente. Cada política tem seus grandes desafios.

Entendemos que políticas de mitigação ótima (combinando isolamento domiciliar de casos suspeitos, quarentena domiciliar de pessoas que moram na mesma casa em que vivam casos suspeitos e distanciamento social de idosos e outras pessoas com maior risco de doença grave) podem reduzir o pico da demanda de assistência médica em 2/3; e as mortes, à metade.

No entanto, a epidemia mitigada resultante provavelmente ainda resultaria em centenas de milhares de mortes e sistemas de saúde (principalmente os já sobrecarregados). Para os países capazes de alcançá-la, a supressão é a opção política preferida”.


Os cálculos do relatório foram baseados na experiência chinesa em Wuhan; os pressupostos da modelagem, para gerar os cálculos, não eram os pressupostos chineses.


“A supressão, embora tenha sido bem-sucedida até o momento na China e na Coréia do Sul, acarreta enormes custos sociais e econômicos os quais, eles mesmos podem ter impacto significativo na saúde e no bem-estar no curto e no longo prazos. A mitigação nunca será capaz de proteger completamente as pessoas que estejam em risco de adoecer gravemente ou de morte, e a mortalidade resultante pode, portanto, ainda ser alta (…). Embora a experiência na China e agora na Coreia do Sul mostra que a supressão é possível no curto prazo, resta saber se é possível no longo prazo, e se os custos sociais e econômicos das intervenções adotadas até agora podem ser reduzidos”.

“As evidências na Itália não foram incluídas no o estudo até alguns dias antes da publicação. Foi o registro italiano, diz o relatório, que levou à conclusão de que “a supressão epidêmica é a única estratégia viável no momento atual”.


“O Reino Unido lutou nas últimas semanas para pensar em como lidar com esse surto a longo prazo” – disse Neil Ferguson, principal autor do relatório do Imperial College, ao New York Times. “Com base em nossas estimativas e de outras equipes, realmente não há outra opção a não ser seguir os passos da China, e suprimir”.

Nos dias seguintes, Ferguson testou positivo para Covid-19. Assim como o primeiro-ministro Witty, Cummings e o ministro da Saúde Matt Hancock.

Putin, Mishustin, os ministros federais e Sobyanin ainda não demarcaram, em declarações públicas, qualquer opção entre as estratégias de mitigação e supressão. No briefing de Protsenko no Hospital Kommunarka, foi muito claramente explicitado que a Rússia estava seguindo o modelo chinês, para evitar as consequências do italiano. Mas há algum debate sobre evidências ou estratégia entre epidemiologistas, economistas da saúde e planejadores russos?

De acordo com Larisa Popovich (em baixo à ,dir.), diretora do Instituto de Economia da Saúde da Escola Superior de Economia de Moscou, não houve debate estratégico ou desacordo, porque a experiência anterior em Defesa Civil já havia decidido a abordagem a ser adotada, e pôde haver rápida reação para que se adotassem as medidas iniciais de controle populacional, testes e rastreamento de contatos.


“As coisas são completamente diferentes para nós [na Rússia]. Reagimos rapidamente: as regiões fronteiriças foram fechadas rapidamente e começamos a isolar as pessoas. Também estou muito feliz que ainda temos um serviço centralizado de controle epidemiológico [Rospotrebnadzor], que funcionou muito bem. Além disso, desenvolvemos nossos próprios testes, que geram resultados em quatro horas, e a produção em massa já começou. Em um futuro próximo, nós passaremos do teste de pessoas com sintomas para o teste de todos com doenças menores e o teste estará disponível para quem quiser. Isso ajudará a identificar aqueles que são portadores assintomáticos”.


Esse é um importante indicador e dado crucial na formulação de políticas russas – a taxa de mortalidade tende a cair acentuadamente à medida que aumenta a população testada. Restringir o numerador de casos graves que requerem cuidados intensivos e forçam a capacidade do sistema hospitalar para tratá-los efetivamente, enquanto multiplica o denominador dos casos positivos testados, é cálculo que produz uma taxa de mortalidade muito baixa, conforme relatam os chineses, além de diminuir o pânico e diminuir a duração do regime de medidas restritivas.


“A Rússia está mais bem preparada”, disse Popovich, “para o coronavírus, do que muitos outros países. Historicamente, temos experiência em combater formas complicadas de pneumonia e formas resistentes a medicamentos, além de doenças pulmonares. Temos uma alta prevalência de tuberculose e nossos médicos sabem como tratar a síndrome do desconforto respiratório”.


Popovich foi perguntada sobre dados consolidados na Rússia, a serem comparados com outros países – por exemplo, para a taxa de testes Covid-19, a disponibilidade de ventiladores, o número de leitos de unidades de terapia intensiva.


Esta tabulação foi relatada em 11 de março. Em três semanas, desde então, o volume de testes mais do que triplicou. Em 27 de março, o Rospotrebnadzor informou que 223.509 testes haviam sido realizados no país.

Popovich e outros especialistas em Moscou relutam em se comprometer com os números. Relatórios de imprensa, publicações do Ministério da Saúde e do instituto Rospotrebnadzor sugerem que o fornecimento de ventiladores portáteis e fixos é melhor do que na maioria dos países europeus ou nos EUA; e, por enquanto, excede a demanda por tratamento de casos críticos. A grande maioria de documentos em que se comparam países da Europa Ocidental e dos EUA, não computa o caso da Rússia.

Igor Molchanov, chefe de anestesiologia e terapia intensiva do Ministério da Saúde, disse, dia 28 de março:


“Com dispositivos de respiração artificial, temos hoje tudo em ordem. Além disso, temos uma certa margem de segurança nessa questão devido a decisões organizacionais oportunas. Por exemplo, todas as intervenções cirúrgicas planejadas foram adiadas e são muitas na Rússia. Os dispositivos anestésicos usados para cirurgia eletiva agora são liberados como reserva: eles também podem ser usados para ventilar pulmões e por longos períodos. No caso do coronavírus, estamos falando de uma curta duração da ventilação pulmonar; portanto, não são esperados problemas com isso. Em termos de equipamento técnico, estamos avançando e prontos para enfrentar os desafios existentes”.


Os gráficos a seguir ilustram a diferença predominante entre a Rússia e outros países: o primeiro é o relatório oficial de caso da Rússia, publicado em 30 de março, com dados de 29 de março, mostrando um total de 1.836 em todo o país; um aumento de 302 novos casos em todo o país no dia anterior (taxa de crescimento de +19,7%). Para Moscou, o agregado era 1.226 (67% do número de toda na Rússia) e o aumento diário de novos casos foi de 212 (+21%). A taxa de crescimento indica claramente que a Rússia está agora na fase de aceleração, se se comparam os números de há uma quinzena, mas já pode estar desacelerando, se comparada a 25 de março (+29%). A contagem de mortes foi extremamente baixa em 11 em todo o país. O segundo gráfico foi preparado pelo Financial Times com os dados atualizados a 29 de março (para ver ampliado, clique aqui).

Para ampliar e exibir os dados,região por região,click to source.

Dados atualizados até 29 de março de 2020. Para ampliar a imagem, click to source.

Quanto a ventiladores, de acordo com relatórios publicados, a Rússia atualmente tem cerca de 45.000 e planeja aumentar o número de fabricantes locais em 5.700, até o final de junho. O estoque atual dos EUA é de 12.700 ventiladores. Mesmo com a renovação de outros 4.000, o agregado americano “ainda equivale a menos de um quarto do que os funcionários estimaram anos antes, que seriam necessários numa pandemia moderada de gripe”.

Em 28 de março, o Ministro da Saúde Murashko anunciou: “Até o momento (…) o Ministério da Indústria e Comércio pôs em circulação um grande número de máscaras; no total, chegam a mais de 30 milhões”.

Quanto ao impacto econômico na economia russa do modelo chinês, ou do que os britânicos estão chamando de “estratégia de supressão”, o discurso nacional de Putin em 25 de março se concentrou em medidas de curto prazo do mercado de trabalho, compensação para os desempregados e alívio de impostos e dívidas para as empresas, para impedir que a produção seja paralisada.

A prioridade, Putin esclareceu, é “garantir a proteção social de nosso pessoal, suas rendas e empregos, além de apoiar as pequenas e médias empresas, que empregam milhões de pessoas”.

As medidas que Putin listou vieram dos ministros de Mishustin que se reuniram para compilar sua lista em 21 de março.

Desde então, não houve uma nova reunião de formuladores de políticas econômicas no primeiro ministério. A transcrição dessa reunião revelou o “Plano de medidas prioritárias para garantir o desenvolvimento econômico sustentável”, elaborado por uma comissão chefiada pelo primeiro vice-primeiro-ministro Belousov. Segundo o comunicado do gabinete do primeiro-ministro, o plano incluía o mercado de trabalho e o apoio a empréstimos bancários que Putin então anunciou.

Mas há uma diferença entre o plano de Belousov e o que Putin anunciou quatro dias depois: duas medidas para aumentar as receitas, que Putin revelou: a primeira, um imposto sobre a juros e dividendos enviados para contas bancárias no exterior.


“Primeiro, os juros e dividendos que fluem da Rússia e são transferidos para o exterior para jurisdições offshore devem ser corretamente tributados. Hoje, dois terços desses fundos, e basicamente estamos falando aqui sobre rendimentos de indivíduos específicos, são tributados à taxa de apenas 2%, graças às chamadas estratégias de otimização de todos os tipos. Ao mesmo tempo, pessoas com salários modestos pagam um imposto de renda de 13%, o que é injusto, para dizer o mínimo. Por esse motivo, sugiro que aqueles que expatriam sua receita como dividendos para contas no exterior paguem um imposto de 15% sobre esses dividendos “.


Esta não é a primeira vez que Putin declara publicamente que os benefícios fiscais usufruídos por aqueles capazes de operar esquemas bancários e de capital offshore são injustos. Esse imposto é a primeira ação de Putin, nesse sentido. Putin é o único chefe de Estado que propõe tributar ricos para ajudar a custear parte dos gastos com a política anti-Covid-19.

O principal defensor da política de saídas de capital não regulamentadas e não tributadas, Alexei Kudrin, ex-ministro das Finanças e atualmente chefe da Câmara de Contabilidade, ainda não achou o que dizer. Antes do discurso de Putin, Kudrin disse que está suspendendo novos processos de auditoria fiscal. “Cancelamos novos processos de fiscalização até 1º de junho. Estão adiados. Durante esse período, só trataremos da conclusão de processos antigos”.*******