PT — GUERRA NUCLEAR: 3.4 Os acidentes com armas nucleares

 

 

MANLIO DINUCCI

GUERRA NUCLEAR

O DIA ANTERIOR

De Hiroshima até hoje:

Quem e como nos conduzem à catástrofe

ÍNDICE

3.4  Os acidentes com armas nucleares

O perigo dos acidentes em que estão envolvidos armamentos nucleares, vem assim descrita, em 1962 , pela comissão do Pentágono para a energia atómica:«As armas nucleares são planeadas com muito cuidado, para só explodirem quando forem deliberadamente activadas e lançadas. Contudo à sempre a possibilidade que, em seguida a circunstâncias acidentais, se verifique inadvertidamente uma explosão. Mesmo que se tenham tomado todas as precauções possíveis para evitá-lo, os acidentes deste tipo podem verificar-se em áreas onde as armas estejam juntas e armazenadas, durante o carregamento e o transporte por terra, ou quando se encontram nos transportadores, como um avião ou um míssil».

Entre os contínuos acidentes deste tipo, na ordem das centenas, mais de vinte são muito graves. Em 10 de Março de 1956, um bombardeiro B-47 americano, precipita-se no Mediterrâneo tendo a bordo, cápsulas de material físsil para bombas nucleares. Em 27 de Julho de 1956, na Grã-Bretanha, um outro bombardeiro deste tipo derrapa sobre a pista e, em chamas, esmaga-se contra um depósito que contém seis bomba nucleares. Em 15 de Dezembro de 1965, um Jet A-4E com uma bomba de hidrogénio B-43, desliza para o mar, do porta aviões americano Ticonderoga, a 70 milhas da ilha japonesa Ryukyu, e nunca mais é encontrado.

Muito mais grave é o acidente que se verifica em 17 de Janeiro de 1966 na Espanha meridional: um B-52 americano com 4 bombas d hidrogénio B-28 a bordo, entra em colisão com um avião cisterna, durante o abastecimento em vôo a 9.000 metros de altitude. Os dois aviões caem e as três bombas H, com uma potência entre 70 quiloton e  1,5 megaton, caem perto de Palomares, uma aldeola pobre de camponeses a cerca de 2 km da costa, enquanto a 4 bomba acaba no mar. No impacto com o solo, o explosivo não nuclear de alto potencial de duas bombas detona e a explosão espalha plutónio e outros materiais fortemente radioactivos sobre uma vasta área. Durante três meses, 1.700 militares americanos e guardas civis espanhóis trabalham na descontaminação da área, recolhendo 1.400 toneladas de terra e vegetação radioactiva que, fechada em barris, são levadas para as instalações americanas de Savannah River. Enquanto os militares americanos usam roupas protectoras, as mesmas não foram fornecidas aos espanhóis.

A única medida concretizada para proteger os habitantes de Palomares, são a lavagem das casas com detergente e o aviso que os campos podem estar contaminados pelas radiações. Dado que os camponeses continuam a cultivá-los, não se sabe quantas são as mortes atribuíveis à radiação. Uma monitoração, efectuada em 1988 sobre 714 habitantes, revela em 124 deles, uma concentração de plutónio na urina muito superior ao nível considerado seguro.

Dois anos depois do incidente de Palomares, em 21 de Janeiro de 1968, um B-52 americano com 4 bombas de hidrogénio B-28, cai perto da base de Thule, na Groênlandia. No impacto com o gelo, o reservatório do avião, com mais de 130.000 litros de carburante, explode, fazendo detonar os explosivos não nucleares de alta potência das 3 bombas H. A explosão espalha por uma vasta área, urânio altamente enriquecido, plutónio e trítio, que permanecem presos no gelo quando este, depois de ter derretido pelo calor do incêndio, torna a congelar.

No trabalho de recuperação foram utilizados 500 civis dinamarqueses, juntamente com 200 militares americanos. Eles trabalharam durante oito meses, em completa escuridão,  até Fevereiro, com ventos de 130 km/h e temperaturas que desceram a 57º C negativos. Recolheram 6.700 metros cúbicos de gelo (10.500 toneladas), de neve e gelo radioactivo e de sucata também radioactiva que, fechados em barris, enviados para as instalações americanas de Savannah River e Oak River.

Nos vinte anos que se seguiram, 100 desses 500 trabalhadores dinamarqueses que tinham efectuado a recuperação ficam doentes com cancro e outras doenças graves entre as quais,  a esterilidade. Os sobreviventes pedem, em 1987, uma compensação à Força Aérea Americana, mas ela nega-o, recusando-se também a fazer o rastreio, a longo prazo, dos militares americanos que fizeram a recuperação. A quarta bomba H, que estava a bordo do bombardeiro que caiu, não foi encontrada. O Pentágono esconde o facto às autoridades dinamarquesas, que permanecem no escuro até que o jornal dinamarquês Jillands-Posten (13 de Agosto de 2000), revela a existência da bomba H perdida, especificando o seu número de série (78252).

Sempre em 1968, em 10 de Março, o submarino soviético K-219 de propulsão a diesel afunda-se no Pacífico a cerca de 750 milhas de Hawaii, com três mísseis nucleares SS-N-5 e dois torpedos com ogivas nucleares, a bordo. Em 27 de Maio do mesmo ano, afunda-se no Atlântico, a 400 milhas dos Açores, um submarino americano de propulsão nuclear, o Scorpion, tendo a bordo, além do reactor, dois torpedos com ogivas nucleares. Em 12 de Abril de 1970, afunda-se no Atlântico, a 300 milhas da costa espanhola, o submarino soviético K-8 a propulsão nuclear, com dois reactores e dois torpedos  com ogivas nucleares.

Na noite de 22 de Novembro de 1975, no Mediterrâneo, 70 milhas a leste da Sicília, o porta aviões americano John F. Kennedy e o cruzador Belknap entram em colisão por causa do mar muito agitado. O Belknap, sobre o qual se verte o carburante vazado das tubagens destruídas do porta aviões, incendeia-se e arde durante duas horas. Poucos minutos depois do acidente, o Almirante no comando da Striking Force do porta aviões da Sexta Frota lança a Broken Arrow (Flecha Quebrada), o grau de alarme máximo, advertindo o Pentágono da «probabilidade das armas nucleares a bordo do Belknap sejam envolvidas no incêndio e na explosão». Neste, como nos outros casos, não se sabe de que modo a catástrofe foi evitada, nem se têm provas que não se tenha verificado um vazamento de radioactividade.

Ente os múltiplos acidentes que envolvem as unidades navais, há a que acontece em 6 de Outubro de 1986: o submarino soviético K-219 de propulsão nuclear, afunda-se quando está a navegar no Atlântico, a 600 milhas de Bermuda. Além de dois reactores nucleares, estão 34 ogivas nucleares. Elas vão juntar-se ao arsenal nuclear perdido e à contaminação radioactiva que os acidentes inevitáveis deixam às gerações futuras.

A seguir:

3.5  O inquinamento radioactivo dos testes e das instalações nucleares – Parte 1

Outra herança mortal que é deixada às gerações futuras é a radioactividade produzida pelos testes nucleares. Ente 1945 e 1991, foram efectuados, oficialmente, 2.024 explosões experimentais, das quais 528 na atmosfera e 1.496 subterrâneas: os EUA efectuaram 1.030 (215 na atmosfera e 807 subterrâneas; a URSS, 715 (219 na atmosfera e 496 subterrâneas); a França 204 (50 na atmosfera e 154 subterrâneas); a Grã-Bretanha 45 (21 na atmosfera e 24 subterrâneas); a China 38 (23 na atmosfera e 15 subterrâneas). Juntam-se a estas, os dois «testes» na atmosfera, efectuados pelos EUA sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945.

 

Os primeiros a ser expostos às radiações são os militares que participam nos testes. Nos Estados Unidos, são enviados mais 200.000 nos polígonos onde se efectuam, entre 1945 e 1962, as explosões nucleares atmosféricas. Nesse momento quase ninguém dá conta do período em que é exposto e, também, porque os comandos garantem que, com as indumentárias de protecção de que dispõem, não correm nenhum risco. Só anos depois, ao ficarem doentes e, muitos, morrendo de cancro por causa das radiações absorvidas, é que se dão conta de terem sido usados como cobaias humanas, nos exercícios de guerra nuclear.

 

«Tinham nos dito que estávamos a 3.750 jardas (3.429 metros) do ground zero, conta um dos soldados que, em Junho de 1957, participou no teste nuclear Priscilla, em Camp Desert Rock, no Nevada. «No clarão da alvorada podíamos ver distintamente, preso a uma grande bola travada, um pequeno objecto a cerca de 700 pés (cerca de 200 metros) do solo. Quando é iniciada a contagem decrescente, disseram-nos para nos ajoelharmos na trincheira, com as costas voltadas para o ponto da explosão, tendo os olhos bem fechados e premindo o antebraço sobre os óculos de protecção. No momento da detonação, cerca das seis da manhã, apesar de termos os olhos fechados e os óculos seguros, vi por uns instantes os ossos do antebraço que tinha premido contra os óculos. Depois de um ou dois segundos, a terra tremeu. Mas ainda estava tudo em silêncio. Depois, um rugido indescritível. Detritos de todos os géneros, arremessados pela explosão, voavam sobre a trincheira que, em parte, se tinha desfeito, enterrando alguns de nós. Depois de 20 ou 30 segundos, disseram para nos levantarmos e olharmos para a bola de fogo. Parecia em cima das nossas cabeças e ainda ardia. Depois fizeram-nos sair das trincheiras e avançar para o ground zero. Naquela época, pensavam que era possível combater uma guerra com tais armas. Só depois de alguns anos é que me dei conta que era uma loucura oficial, conduzir estes testes e doutrinar as tropas que participavam neles, para dizerem que tinha sido útil e também possível combater e vencer uma guerra nuclear».

 

Outro soldado que participou, em Julho de 1957, no mesmo polígono, no teste Shot Hood, com um engenho muito mais potente (80 kiloton), conta o que aconteceu quando, depois da deslumbrante explosão, lhe foi dito para se levantar: «Os meus olhos começaram a olhar para cima, sempre mais para cima, seguindo o espesso tronco de fumo e fogo ardente, na parte superior do grande cogumelo. Não consigo mover-me, se bem que tenha sido dada essa ordem. Então um sargento deu-me um pontapé no traseiro, gritando-me para eu andar. Tínhamos começado a caminhar em fila indiana em direcção ao ground zero, sempre com o olhar fixo, como hipnotizados, para aquela coluna de fumo e chamas que continuava a fervilhar sobre nós». O mesmo soldado, ao pensar naquele momento, escreve:« Então, eu tinha uma fé completa nas autoridades e jamais teria imaginado que me teriam metido em perigo numa situação de não combate. Claro que me enganava. O governo era descuidado com todos nós. A nossa verdadeira função, ali, era de fazer de manequins nas trincheiras. Mas para que diabo, devíamos tomar de assalto o ground zero, poucos minutos depois da explosão? O que é que restava lá para assaltar?»

 

Um marinheiro, que em Março de 1954 se encontra a bordo do contratorpedeiro Philip, a cerca de de 30 milhas (mais de 55 km) do atol de Bikini, também recorda a explosão de uma bomba de hidrogénio de 15 megaton:« Tinham-nos dito para não olharmos para a esfera de fogo porque, também àquela distância, poderíamos ficar com danos permanentes nos olhos. Quando é iniciada a contagem decrescente, nós, no convés, agachámos-nos sobre o lado direito, com a cabeça entre os braços e os olhos fechados. No momento da explosão, a luz da alvorada transformou-se numa luz deslumbrante, como um sol do pino do verão. A seguir, depois de alguns minutos, Podemos ver o que o homem tinha feito. A bomba de hidrogénio tinha criado o espectáculo mais aterrorizador que os olhos humanos jamais tinham visto. Tínhamos a visão do Apócalipse. Pudemos ver a onda de choque que se aproximava, movendo-se através da água, varrendo em direcção às nuvens, vaporizando-as. Ninguém da equipagem falava, estava um silêncio religioso, enquanto víamos a nuvem atómica em ebulição que ascendia ao céu. Recordo de ter-me dirigido ao meu superior, perguntando-lhe como alguém poderia pensar em iniciar outra guerra. Não me respondeu, apenas abanou a cabeça lentamente.»

 

Nos anos seguintes aos testes nucleares, o governo quase nunca reconhece que os tumores contraídos pelos soldados são devidos às radiações absorvidas. Um dos «veteranos atómicos» escreve: «Ao longo dos anos, tive de passar por várias intervenções cirúrgicas para remover as células cancerosas do rosto, do peito e dos braços.Tentei obter uma compensação, mas foi-me sempre negada». Outro escreve: «Em minha opinião, foi gasto um montão de dólares, retirados dos impostos, para redigir estudos enganosos e convencer que os testes não eram perigosos para a nossa vida e,  para o que é mais importante, para a nossa saúde.»

 

Os testes do Nevada, também, semearam a morte entre os civis. As nuvens radioactivas das explosões espalharam-se numa vasta área elíptica, abrangendo o Utah, o Idaho, Montana e zonas ainda mais longínquas, provocando no decurso dos anos, pelo menos, 15.000 casos mortais de cancro e 20.000 não mortais.

 

3.5  O inquinamento radioactivo dos testes e das instalações nucleares – Parte 2

A morrer devido aos testes nucleares também estão as divas de Hollywood. Em 1954, a firma cinematográfica, RKO decide realizar um filme sobre Gengis Khan, The Conqueror, dirigido por Dick Powell e interpretado por John Wayne e Susan Hayward. Na impossibilidade de filmá-lo na Mongólia, sendo o período da guerra fria, o grupo de artistas vai para o deserto do Utah, a pouco mais de 150 km do polígono do Nevada onde ocorrem testes nucleares. Permanecem aí durante três meses e, regressando a Hollywood, levam do Utah, 60 toneladas de areia do deserto para tornar mais realísticas, as cenas a filmadas nos estúdios. Nos anos seguintes, 91 dos 220 membros da troupe são atingidos por vários carcinomas. Mesmo que a causa não seja oficialmente reconhecida, o Departamento de Biologia da Universidade de Utah conclui, depois de ter estudado o caso, que a causa a provocar na troupe uma tão alta incidência de mortes pelo cancro não podia ser outra senão o fallout dos testes nucleares do Nevada.

 

Só em 5 de Agosto de 1963, pois que desde 1945 são efectuadas, na totalidade, 528 explosões nucleares na atmosfera, os EUA, a União Soviética e a Grã-Bretanha assinam o Tratado de Interdição Parcial de Ensaios Nucleares (Partial Test Ban Treaty) que proíbe as explosões nucleares na atmosfera, no Espaço Exterior e nas profundezas marítimas. Mas, a radioactividade tinha-se espalhado na atmosfera terrestre: só os testes realizados no polígono do Nevada, entre 1951 e 1963, lançam 12 biliões de curie, uma radioactividade equivalente a  cerca de 150 vezes à que foi provocada pela catástrofe nuclear de Chernobyl, em 1986.

 

Em cerca de metade dos testes subterrâneos, verificam-se emissões de radioactividade, mas numa medida muito menor, se comparadas às das explosões na atmosfera. Segundo um estudo efectuado pelo US Congressional Office of Technological Assessment, em 1989, 126 explosões nucleares subterrâneas, efectuadas no polígono do Nevada, entre 1970 e 1988, provocam um lançamento de radioactividade na atmosfera, quer imediatamente, quer nas semanas seguintes, devido ao gás que, ao espalhar-se, atravessa as rochas porosas e as cavidades subterrâneas, atingindo a superfície mesmo em zonas distantes.

 

Juntam-se a estas, as emissões radioactivas ds instalações nucleares militares: nas americanas, segundo o mesmo Departamento de Energia, verificam-se cerca de 10.000 casos de contaminação activa do solo, das faldas aquíferas e dos edifícios. Nas instalações de tratamento de Savannah River, Hanford e Ineel, reservatórios contendo 300 milhões de litros de escórias altamente radioactivas, filtram no solo cerca de 3,8 milhões.

 

Só na área onde está situado o maior complexo para o fabrico de armas nucleares, a Hanford Nuclear Reservation, mais de 20.000 crianças estão expostas ao iodo-131, um isótopo radioactivo que provoca o cancro da tiróide. Dado que a radioactividade tem efeitos a longo prazo, prevê-se, a seguir aos testes e às fugas radioactivas, pelo menos outros 120.000 casos de cancro de tiróide, dos quais cerca de 6.000 mortais. É a Hiroshima dos Estados Unidos.

 

Ainda mais desastrosas são as consequências dos testes nucleares soviéticos. Na região de Semipalatinsk, no Casaquistão, de 1949 a 1989 efectuam-se 459 explosões nucleares – das quais, 87 na atmosfera, 26 ao nível do solo, 346 subterrâneas – com uma potência total equivalente a 1.100 bombas de Hiroshima. Os habitantes não são advertidos do perigo, nem protegidos com medidas preventivas adequadas. Cerca de 1 milhão e meio de pessoas são atingidas pela queda da radioactividade e dos gases radioactivos que se escapam durante os testes subterrâneos. A mortalidade infantil é 10% superior à media nacional; a incidência de doenças do sangue é de 30%; e casos de atraso mental, é 200%. A incidência de casos de cancro, que em 1980 é de 158 para 100.000 habitantes, aumenta um terço em 10%. Entre 1980 e 1990, as mortes por cancro de pulmão triplicam; as de cancro do intestino, aumentam oito vezes mais.

 

Nas instalações soviéticas, sobretudo nas «três cidades de plutónio» (Cheyabinsk-65, Tomsk-7, Krasnoyarsk – 26), onde se produz a matéria prima para as armas nucleares, verificam-se autênticos desastres. O mais grave teve lugar em Chelyabinsk. De 1949 a 1956, as descargas radioactivas do complexo de Mayak são lançadas no rio Techa, do qual se abastecem de água, 24 aldeias. Em 1957, nas instalações de Kyshtym, explode um depósito de escórias altamente radioactivas, contaminando um território habitado por 250.000 pessoas, do qual é evacuado uma mínima parte. Dez anos depois, em 1967, quando a seca drena o Lago Karachai, no qual o complexo de Mayak lança as descargas radioactivas de 1951, uma tempestade de vento espalha a poeira radioactiva sobre um território habitado por meio milhão de pessoas.

 

Na região de Chelyabinsk, devido à radioactividade, 90 % das crianças contrai doenças crónicas e a duração de vida é de 50 a 55 anos. É a Hiroshima soviética, que faz mais vítimas do que as provocadas pelos bombardeamentos nucleares das cidades japonesas.

 

A radioactividade produzida pelos testes nucleares (sobretudo atmosféricos), dos acidentes em que estão envolvidas armas nucleares e as emissões das instalações nucleares militares, compromete a saúde de milhões de pessoas. Não se sabe com exactidão o número, pois o segredo militar reina soberano. Segundo uma das estimativas, as pessoas atingidas pelos efeitos das radiações serão 15 milhões e os mortos mais de meio milhão. No entanto, sabe-se que os efeitos das radiações continuarão a transmitir-se, de geração em geração, provocando outros milhões de mortos. Depois de Hiroshima e Nagasaki, a Bomba continua a matar.

 

3.6  A ligação entre o nuclear militar e civil

Já em 1943, no decurso do projecto Manhattan, descobre-se que o reactor nuclear, com que se produz o plutónio para a bomba de Nagasaki, produz energia térmica que poderia ser convertida em energia eléctrica. Torna-se evidente aos generais e aos governantes, a vantagem de construir centrais nucleares civis que, enquanto produzem energia eléctrica, podem fornecer plutónio e outros materiais físseis para uso militar e, ao mesmo tempo, amortizar os custos através da energia eléctrica produzida.

 

Paradigmático, é o facto, de que o anúncio do futuro nascimento da indústria nuclear ter sido feito, imediatamente após o primeiro uso militar de energia nuclear, com o bombardeamento de Hiroshima: «A energia atómica – escreve o Presidente Truman na Declaração de 6 de Agosto de 1945  – poderia, no futuro, fornecer a energia que agora provém do carvão, do petróleo e da água, mas que no estado actual não pode ser produzida numa base comercialmente competitiva». A primeira energia electronuclear surge produzida experimentalmente nos Estados Unidos, em 1951 e, três anos depois, também na União Soviética.

 

Em 8 de Dezembro de 1953, o Presidente dos Estados Unidos, Dwight D. Eisenhower pronuncia, na Assembleia Geral das Nações Unidas, o discurso «Átomos para a Paz». Antes de tudo, ele salienta que «o arsenal de bombas atómicas dos Estados Unidos, o qual aumenta mais a cada dia e supera, muitas vezes, o equivalente a todas as bombas e a todos os projécteis, aviões e canhões em todos os teatros bélicos, durante todos os anos da Segunda Guerra Mundial». Mas, acrescenta, «o terrível segredo e os aterradores instrumentos da potência atómica não pertencem só a nós.» De facto, a União Soviética realizou a sua primeira explosão nuclear experimental em 1949, e a Grã-Bretanha em 1952.

 

Embora os Estados Unidos tenham «acumulado uma grande vantagem quantitativa» nos armamentos nucleares, afirma Eisenhower, «o conhecimento agora possuído por alguns países será finalmente partilhado por outros, talvez por todos os outros», isto é, é possível que muitos outros países adquiram a capacidade de construir armas nucleares. Em seguida, ele propõe construir uma agência internacional, sob a égide das Nações Unidas, para o uso pacífico da energia atómica, em particular para «fornecer energia eléctrica abundante, às áreas do mundo esfomeadas de energia». Assim, todos os povos «poderão ver que, nesta era iluminada, todas as grandes Potências da Terra, seja do Leste ou do Ocidente, estão mais interessadas nas aspirações humanas do que na construção de armamento de guerra».

 

Fundamentada nesta proposta que, também é aceite pela União Soviética, é constituída em 1957 a International Atomic Energy Agency (IAEA), organização autónoma inter-governamental, sob a égide das Nações Unidas, à qual aderem, sucessivamente, 168 Estados. Segundo o Estatuto, aprovado em 1956, a sua tarefa principal é «encorajar e ajudar a pesquisa da energia atómica para fins pacíficos, o seu desenvolvimento e as aplicações práticas, à escala mundial». Depois da conclusão do Tratado de Não-Proliferação das Armas Nucleares, em 1968, a IAEA assume também a tarefa de «verificar que os Estados não nucleares, aderentes ao TNP, obedeçam às obrigações da não-proliferação».

 

Enquanto é constituída a IAEA, entra em funcionamento, em Calder Hall, na Grã Bretanha, em Outubro de 1956, a primeira central electronuclear do mundo. A primeira central americana fica pronta a funcionar, em Dezembro de 1957, em Shippingport (Pennsylvania). Também essa, como a de Calder Hall, enquanto fornece electricidade, produz plutónio para as bombas nucleares. O mesmo acontece em França, onde o primeiro reactor electronuclear que começa a funcionar em Marcoule, em 1959.

 

O desenvolvimento indiscutível da industria electronuclear começa nos anos sessenta. Em seguida, nos anos setenta e oitenta, a indústria electronuclear atinge o máximo desenvolvimento: tornam-se operacionais, neste período, 105 reactores nos Estados Unidos, 52 em França, 47 na União Soviética, 37 no Japão, 28 na Alemanha,19 no Canadá, 17 na Grã Bretanha, 12 no Japão, 9 respectivamente na Espanha e na Coreia do Sul, 7 na Bélgica, 5 na Checoslováquia, Índia e Bulgária, 4 na Hungria, Finlândia e Suiça; 2 na África do Sul e Argentina; 1 no Brasil, México, Itália, Holanda, Jugoslávia e Paquistão.

 

A indústria eletronuclear nasce, portanto, como uma consequência tecnológica do nuclear militar e serve, por sua vez, para o desenvolvimento deste último, permitindo produzir, às grandes potências nucleares, quantidades crescentes de plutónio e de outros materiais físseis, e de amortizar, parcialmente, os custos através da venda da energia eléctrica e de centrais electronucleares completas. Cria-e assim um mercado internacional do sector nuclear, dominado no Ocidente por um oligopólio de multinacionais como a Westinghouse, a General Electric, a Union Carbide. Deste modo, outros países estão capacitados para produzir plutónio e urânio enriquecido, cuja quantidade real pode ser facilmente subtraída ao controlo dos inspectores do IAEA: de facto, basta declarar uma produção inferior à efectiva, sobrestimando as perdas tidas nas instalações de reprocessamento do combustível dos reactores nucleares. Além disso, no ciclo de exploração do urânio, não existe uma linha nítida de demarcação entre o uso civil e o uso militar dos materiais físseis.

 

Uma vez extraído na mina, o Urânio 238 é enriquecido, e torna-se em U 235 numa instalação especial: 60% para reactores rápidos actuais, mais de 90% para armas nucleares (mesmo que baste exceder 20% para construir uma bomba nuclear rudimentar). Com o urânio enriquecido a 3-4%, são fabricadas as barras de combustível para os reactores térmicos. Estas são montadas e instaladas nos reactores, dos quais constituem o núcleo, permanecendo 2-3 anos. O combustível usado nas centrais electronucleares, ainda fortemente radioactivo, forma as escórias que são, em parte, transferidas para uma fábrica de tratamento, onde são extraídos os elementos utilizáveis: o Urânio 235 e o Plutónio 239. Entretanto, o urânio extraído volta para a instalação de enriquecimento ou para a fábrica de elementos combustíveis para reactores térmicos. O Pu 239 é recolhido num depósito.

 

Parte deste plutónio é utilizada, juntamente com o urânio enriquecido a 60%, para fabricar as barras de combustível para os reactores rápidos. Nos reactores auto fertilizantes rápidos, que usam como combustível o plutónio, produzindo mais material fissionável do que aquele que consomem, o urânio (U 238) transforma-se, por sua vez, em Pu 239, que vai aumentar o depósito de plutónio. Para o fabrico de armas nucleares é usado o Pu 239, proveniente do depósito de plutónio, e o U 235, proveniente da fábrica de enriquecimento. O plutónio para as armas nucleares é fornecido  também pelos reactores térmicos militares que, utilizando barras de combustível metálico, produzem uma quantidade maior do que os reactores normais, que utilizam barras de óxido de urânio, mas sempre inferior à dos reactores auto fertilizantes rápidos.

 

Esta é a ligação estreita entre o nuclear civil e militar a favorecer a proliferação das armas nucleares. Sublinha-o, em 1976, Victor Gilinsky, membro da comissão americana que lança as concessões para a construção das centrais nucleares: ««Pelo que diz respeito ao plutónio produzido nos reactores, de facto, é possível utilizá-lo  para a realização de bombas atómicas em sistemas tão diversos de desenvolvimento tecnológico. Por outras palavras, países menos desenvolvidos do que os principais países industrializados, desenvolvem programas de energia nuclear e estão a ponto de realizar bombas atómicas de qualidade não desprezível». Quando Gilinsky lança este aviso, a China e a Índia já começaram a construir armas nucleares e o Paquistão prepara-se para fazê-lo.

 

N.da T: Relação das centrais nucleares actuais e do seu estado 

  Centrales nucleares en Abu Dhabi

 

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos