NA PRIMEIRA PESSOA — PARTE 3 — O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO

 

 

 

 

 


PARTE 3

O ESTUDANTE UNIVERSITÁRIO 

Putin estuda afincadamente na universidade, mas ainda consegue tempo para atravessar Leninegrado no seu carro Zaporozhets e competir em torneios de judo. Durante o verão trabalha na construção civil com os seus amigos. Tem romances e separações, mas a sua paixão primordial permanece intacta: encontrar um caminho para o KGB.

Foi difícil entrar para a universidade?

Sim, foi, porque havia 100 vagas e apenas 10, estavam reservadas para alunos do ensino médio. O resto era para o pessoal do exército. Portanto, para nós, os do secundário, a competição era dura; algo como 40 alunos para cada vaga. Tive um B em composição, mas A em todas as outras disciplinas e fui aceite. A propósito, nessa época, não tive em consideração a média total do candidato. Portanto, no 10º ano, pude dedicar-me completamente às disciplinas que tinha de passar para entrar na universidade. Se não tivesse posto de parte as outras disciplinas, não teria entrado.

Graças a Deus,tínhamos professores muito inteligentes com tácticas duras, na nossa escola. O seu principal objectivo era preparar os alunos para entrar na Faculdade. Logo que perceberam que eu não ia ser químico e que queria seguir humanidades, não interferiram. De facto, foi o contrário, eles aprovaram.

É evidente que estudou aplicadamente na universidade, tendo em vista o seu futuro?

Sim, estudei arduamente. Não me envolvi em actividades extracurriculares. Não era um funcionário Komsomol.

A sua remuneração era suficiente para cobrir as suas despesas básicas?

Não, não era suficiente. Ao princípio, os meus pais tiveram de me ajudar. Eu era estudante e não tinha dinheiro suficiente. Podia ter ganho dinheiro extra, trabalhando na construção civil, como muitos. Mas qual teria sido o objectivo? Estive numa equipa de construção,  uma vez.

Fui para Komi, onde abati árvores para uma indústria de serração e reparação de casas. Acabei o trabalho e eles deram-me im pacote de dinheiro, provavelmente, 1.000 rublos. Nesses dias, um carro custava 3.500 a 4.000 rublos. Mas por mês e meio de trabalho, eles pagaram-me 1.000 rublos. Na verdade, uma porção de dinheiro fantástica.

Ganhámos o nosso dinheiro. Então tínhamos de gastá-lo em alguma coisa. Os meus dois amigos e eu, fomos para Gagry de férias, sem mesmo parar em Leninegrado. Chegámos lá e no primeiro dia ficamos embriagados, por ter procurado e consumido kebabs com vinho do Porto. Depois pensámos no que fazer a seguir. Onde poderíamos passar a noite? Provavelmente havia alguns hotéis, mas não esperávamos encontrá-los. Já noite avançada, encontrámos uma senhora idosa que concordou ficar connosco e ceder-nos um quarto.

Passámos alguns dias a nadar, bronzear e a desfrutar um descanso merecido. Mas em breve, tivémos de sair de lá e regressar a casa. Estávamos sem dinheiro. Arquitectámos um plano; iríamos encontrar lugares no convés de um navio a vapor a caminho de Odessa. Então tomávamos um comboio para Peter, comprando bilhetes para os beliches de cima, nas carruagens-cama, que eram mais baratos.

Juntámos os trocados e percebemos que só tínhamos alguns trocados deixados para a compra de provisões. Decidímos comprar tushonka, uma espécie de guisado enlatado, para a viagem. Um dos meus companheiros era mais cuidadoso com o dinheiro do que o outro, que era um gastador. Quando dissémos ao nosso amigo mais poupado que ele devia partilhar a massa, ele pensou um minuto e depois disse: “Essa carne estufada é um bocado dura para o meu estomago. Não é a comida apropriada para comprar. Nos dissémos: “Seja como for. Vamos indo”

Quando chegámos às docas, havia uma grande multidão. O navio era enorme, um bonito paquete transatlânticobranco. Disseram-nos que eram permitidos apenas, os passageiros com bilhetes para as cabines e os que tivéssem assentos no convés ainda não eram admitidos. Todos os passageiros do convés tinham bilhetes pequenos  de cartão, mas nós tínhamos bilhetes maiores, semelhantes aos dos passageiros de primeira classe. O meu amigo que tinha recusado juntar o dinheiro para a carne enlatada disse: “Sabem, não gosto do aspecto disto. Penso que não vai resultar. Vamos tentar entrar agora. Eu disse:” É estranho, vamos ficar aqui e esperar a nossa vez.” Ele disse: “Bem, podes ficar se quiseres. Nós vamos entrar. “Então eles foram embarcar no navio e, claro, corri atrás deles.

O cobrador dos bilhetes perguntou-nos que bilhetes tínhamos. “Temos os grandes,” respondemos. Ele acenou-nos para entrar.

Então, deixaram-nos entrar a bordo com os passageiros de primeira classe. Depois, o contramestre ou alguém, gritou: “Há mais passageiros da primeira classe?”A multidão na doca permanecia silenciosa. Ele tornou a perguntar: “Estão apenas os passageiros do convés?” A multidão, que esperava ser admitida, gritou emocionada: “Sim, só passageiros do convés!” Ao que ele gritou: “Ergam a prancha!”

Eles ergueram a escadaria de acesso e de repente, o pânico ocorreu no cais. As pessoas estavam furiosas. Tinham sido enganadas. Tinham pago dinheiro e agora não os deixavam entrar no barco.

Mais tarde foi-lhes dito que havia excesso de carga e que o navio estava cheio.

 Se não tivéssemos entrado a bordo quando o fizémos, teríamos ficado na doca. E não tínhamos nem uma única moeda. Não sei o que teríamos feito.

Então, instalámo-nos nos barcos salva-vidas, que pairavam sobre a água. E foi assim que chegámos a casa, como se estivéssemos deitados em redes. Durante duas noites, olhei para o céu e não consegui desviar os olhos. O navio continuou navegando e as estrelas pareciam penduradas muito perto. Sabem o que quero dizer? Os marinheiros podem estar acostumados, mas para mim foi uma descoberta maravilhosa.

Naquela primeira noite, observámos os passageiros das cabines. O que nos deixou um pouco melancólicos ao ver quão maravilhosas eram as suas vidas. Tudo o que tínhamos eram os barcos salva vidas, as estrelas e as latas de tushonka.

O nosso amigo poupado não tinha carne enlatada. Não aguentou mais e foi ao restaurante. Mas os preços lá eram tão altos que voltou rapidamente e disse com indiferença: “Bem, suponho que não me importaria de levar uma pequena lata de tushonka para baixo”. Mas o meu outro amigo, que cumpria rigorosamente as regras, disse: “Sabes, tens de ter cuidado com o teu estômago. Não é bom para ti”. Então o amigo parcimonioso, depois disso, passou fome durante um dia. Claro que foi cruel, mas também foi justo.

Quando fui para a universidade, comecei a concentrar-me nos meus estudos. O atletismo ficou em segundo lugar. Mas treinei regularmente e participei em todas as competições da União, embora, na verdade, fosse apenas por hábito.

Em 1976, tornei-me campeão intercidades. As pessoas da nossa secção incluíam não apenas amadores, como eu, mas também profissionais e campeões europeus e olímpicos, tanto no sambo como no judo.

Classifiquei-me como Mestre cinturão negro de sambo depois de entrar na universidade e, dois anos depois, Mestre de judo. Não sei como é hoje em dia, mas naquela época era necessário obter um certo número de vitórias sobre os oponentes de um certo nível e participar em competições sérias. Por exemplo, tinha de estar entre os três primeiros na cidade ou conseguir o primeiro lugar em todas as competições do Trud.

Lembro-me muito bem de algumas partidas. Depois de uma delas eu não conseguia nem respirar. O meu adversária era um atleta forte e eu tinha usado tanta energia que apenas chiava, em vez de inspirar e expirar. Ganhei, mas apenas por uma pequena margem.

Houve uma ocasião em que perdi num combate com o campeão mundial, Volodya Kullenin. Mais tarde ele começou a beber muito e foi assassinado na rua. Mas, na universidade, era um óptimo atleta, realmente brilhante e talentoso. Ainda não tinha começado a beber quando lutei com ele. Estávamos a competir pelo campeonato da cidade. Ele já era campeão mundial. Imediatamente, durante os primeiros minutos, lancei-o sobre as minhas costas e fi-lo graciosamente, com facilidade. Em princípio, o jogo deveria ter terminado naquele momento, mas como Kullenin era campeão mundial, não teria sido correcto parar a luta. Então deram-me alguns pontos e continuamos. É claro que Kullenin era mais forte que eu, mas lutei muito. Segundo as regras desta arte marcial, qualquer tipo de grito é considerado um sinal de derrota. Quando Kullenin torceu o meu cotovelo para trás, o juiz pareceu escutar alguns grunhidos meus. Então Kullenin foi declarado o vencedor. Recordo esse jogo até hoje. Não tive vergonha de perder com um campeão mundial.

Houve outra partida que  vou recordar para o resto da minha vida, embora não tenha participado. Tinha um amigo na universidade com quem conversei para ele entrar no ginásio. Primeiro  treinou judo e fê-lo muito bem. Uma vez houve uma competição e ele estava a lutar. Ele deu um pulo para a frente e caiu de cabeça no tapete. As vértebras estavam deslocadas e ele estava paralisado. Morreu 10 dias depois no hospital. Era um colega excelente. E arrependo-me, até hoje,  de tê-lo levado para o judo. . . .

Traumas como este foram bastante frequentes durante as competições e partidas. As pessoas quebravam braços ou pernas. Os jogos eram uma forma de tortura. E o treino também era difícil. Costumávamos ir a um centro atlético nos arredores de Leningrado, no lago Khippiyarvi. É um lago razoavelmente grande, com cerca de 17 quilómetros de largura. Todas as manhãs, quando nos levantávamos, corríamos primeiro ao redor do lago. Depois da corrida, havia exercício, depois treino, café da manhã, mais treinos, almoço, descanso depois do almoço e depois, novamente, exercícios.

Costumávamos viajar bastante pelo país. Uma vez fomos a uma partida na Moldávia, em preparação para a competição dos Spartakiad dos povos da URSS. Estava terrivelmente quente. Eu estava a sair do nosso treino com o meu amigo Vasya e havia vinho à venda em todos os lugares. Ele disse-me: “Vamos beber uma garrafa de vinho cada um”. “Está muito calor”, respondi. “Então vamos descontrair”, disse ele. “Tudo bem, tudo bem. Vamos beber um pouco de vinho”, respondi.

Cada um de nós pegou numa garrafa, voltamos para o nosso quarto e aterramos nas nossas camas. Ele abriu a garrafa dele. “Está demasiado calor”, disse. “Não vou beber.” “Não mesmo?” ele perguntou. “Ok, faz como entenderes”.  E esvaziou a garrafa. Então ele olhou para mim e perguntou: “Tens a certeza de que não vais beber nenhum?” “Sim, tenho a certeza”, respondi. Então ele pegou na segunda garrafa e esvaziou-a. Colocou as garrafas vazias na mesa e apagou, instantaneamente, como uma luz. De repente, lá estava ele, a ressonar. Realmente arrependi-me de não ter bebido com ele! Eu dei voltas e  mais voltas. Não consegui aguentar mais e abanei-o levemente. “Ei, tu aí. Estás a ressonar, para com isso! Estás a roncar como um elefante”. 

Foi uma excepção, porque beber torna os treinos muito mais difíceis. Havia um tipo enorme que treinava connosco. Chamava-se Kolya. Não só era gigantesco, mas tinha um semblante incrível. Tinha um queixo proeminente que se projectava para frente e sobrancelhas enormes. Uma noite, alguns rufias começaram a cercá-lo num beco escuro e ele disse: “Gente, acalmem-se. Aguentem um segundo”. Então pegou num fósforo, raspou-o e segurou-o perto do rosto. “Basta olhar para mim”, disse ele. E esse foi o fim desse incidente.

Sergei Roldugin (solista da Orquestra Sinfónica do Teatro Mariinsky, amigo da família Putin e padrinho da filha mais velha de Putin, Masha):

O Volodya foi para a escola com o meu irmão. Quando me mudei para Leningrado,o meu irmão falou-me do Vovka. Trouxe-o para nossa casa e demo-nos bem. Penso que foi em 1977. Depois, ele tornou-se um irmão para mim. Quando não tinha para onde ir, ia até a casa dele.Comia e dormia lá.

Fui convocado para o exército e servi em Leningrado. Uma vez, Vovka veio ver-me no seu Zaporozhets. Saltei a vedação e abandonei o meu posto sem permissão. Passeamos em Leningrado durante toda a noite. O tubo de escape estava danificado e nós andámos às voltas, cantando cantigas. Até me lembro da música que cantámos:

“Nós tivemos apenas uma noite,

O comboio de alguém foi embora esta manhã

E depois o avião de alguém partiu um pouco depois. . . “

VP: Nós cantámos e cantámos muito alto, sem inibições. Afinal de contas, o tubo de escape estava partido. Uma vez minha mãe recebeu um bilhete de lotaria estatal, em vez do troco, numa cafetaria e ganhou um carro Zaporozhets. Eu estava no terceiro ano da universidade e não conseguímos decidir o que fazer com aquele carro durante muito tempo, visto que vivíamos muito modestamente. Eu acabara de comprar o meu primeiro casaco quando voltei de trabalhar nas obras, um ano depois das férias, com os meus amigos em Gagry. Foi o meu primeiro casaco decente. O dinheiro era escasso na nossa família e dar-me o carro era uma loucura completa. Poderíamos tê-lo vendido e conseguido pelo menos 3.500 rublos por ele. O que teria resolvido o nosso orçamento familiar com bastante antecedência. Mas os meus pais decidiram mimar-me. Deram-me o Zaporozhets. Diverti-me bastante  com aquele carro. Costumava conduzir para todos os lugares, até mesmo para as minhas lutas.

Era um condutor destemido, mas receava ter um acidente com o carro. Como iria consertá-lo?

No entanto, uma vez teve um acidente. Atropelou um homem.

Não foi por minha culpa. Ele saltou para a minha frente ou algo assim. . . . Decidiu pôr fim à vida. . . . Não sei o que é que ele estava a fazer. Era idiota. Fugiu depois de eu lhe ter batido.

Dizem que o perseguiu.

O quê? Pensa que eu bati num fulano com meu carro e que tentei persegui-lo? Não sou uma fera. Saí do carro.

É capaz de permanecer calmo em situações críticas?

Sim, continuo calmo. Mesmo calmo demais. Mais tarde, quando fui para a escola dos serviços secretos/br. inteligência, certa vez recebi uma avaliação, onde eles escreveram o seguinte, como avaliação negativa do caráter: “Uma sensação de perigo diminuída”. Isso era considerado uma falha muito séria. Você tem de ter entusiasmo e estímulo em situações críticas para reagir bem. O medo é como a dor. É um indicador. Se algo dói, significa que algo está errado no seu corpo. É um sinal. Eu tive de trabalhar o meu sentido de perigo durante longo tempo.

É evidente que não é um jogador?

Não, não sou um jogador.

Perto do final da universidade, fomos para o campo de treino militar. Dois dos meus amigos estavam lá, um dos quais tinha ido a Gagry comigo. Passámos lá dois meses. Era muito mais fácil do que os campos de atletismo e ficámos muito aborrecidos. A principal fonte de entretenimento eram os jogos de cartas. Quem ganhou foi para a aldeia e comprou leite a uma senhora idosa. Recusei-me a jogar, mas os meus amigos não. E perderam tudo rapidamente.

Quando não tinham mais nada, eles vinham implorar algum dinheiro. Eram verdadeiros apostadores. E eu questionava-me: “Devo dar-lhes alguma coisa? Eles só irão perdê-lo”.

E eles diziam: “Escuta, os teus poucos copeques não vão salvar-te, de maneira nenhuma. Por que razão  não nos dás”?  E eu dizia-lhes: “Tudo bem. Afinal, tenho um sentido de perigo diminuto” e dei-lhes o dinheiro.

Caramba, eles ganharam bastante dnheiro! Não podia ter corrido melhor. E fomos comprar leite à senhora todas as noites.

A universidade é uma época de romances. Teve algum?

Quem não teve? Mas nada sério . . . a não ser uma vez.

Primeiro amor?

Sim. Ela e eu tínhamos planeado dar o nó.

Quando é que aconteceu?

Cerca de quarto anos antes de eu casar.

Então não resultou?

Claro que não.

O que é que surgiu? 

Algo. Alguma intriga ou algo parecido.

Ela casou-se?

Com alguém? Sim, mais tarde.

Quem decidiu que não iriam casar?

 Eu. Tomei essa decisão. Já tínhamos os banhos a correr. Estava tudo pronto.

Os nossos pais tinham comprador tudo. O anel, o fato, o vestido de noiva… O cancelamento foi uma das decisões mais difíceirs da minha vida. Foi realmente difícil. Sentí-me uma pessoa detestável. Mas decidí que era melhor sofrer então do que ambos a sofrer mais tarde.

Isto é, fugiu literalmente e deixou-a no altar?

Quase. Só que não fugi. Contei-lhe a verdade tanto quanto considerei necessário.

Quer falar sobre esse assunto?

Não, não quero. É uma história complicada. Foi como foi. Foi realmente difícil.

Tem remorsos?

Não.

   

Sergei Roldugin:

Eu gostava da namorada dele, ela era uma menina bonita; uma estudante de medicina com um caráter forte. Ela era uma amiga para ele, uma mulher que cuidaria dele. Mas será que ela o amava? Não sei. Lyuda, a sua esposa ou Lyudik, como nós lhe chamamos agora, ela realmente ama-o.

Dava muito bem com aquela jovem. Penso que o nome dela também era Lyuda. Ela costumava preocupar-se com a saúde dele. Não era apenas: “Oh, querido, como te sentes?” Ela dizia: “Agora, posso dizer que o teu estômago está a doer”. Não sei o que aconteceu entre eles. Ele não me contou nada. Disse que tudo tinha acabado. Penso que o desentendimento foi apenas entre eles, porque ambos os pais concordaram com a situação.

Vovka sofreu, claro. O facto é que somos ambos do signo Balança e levamos as coisas muito a sério. E naquele momento vi que ele. . . que era uma pessoa muito emocional, mas que simplesmente não conseguia expressar as suas emoções. Costumava dizer-lhe que ele era uma pessoa terrível com quem conversar. Por que motivo é que ele tinha tanta dificuldade em conversar?

Claro,que agora é Cícero, comparado com a maneira como ele se exprimia naquela época. Eu costumava explicar-lhe: “Falas muito depressa. Não deverias falar tão rápido”. Sendo artista de palco, pensei que poderia ajudá-lo. Ele tinha emoções muito fortes, mas não conseguia exprimi-las de maneira simples. Considero que a sua profissão deixou uma marca no seu discurso. Agora ele fala lindamente. De maneira expansiva, inteligível e com sentimento. Onde é que ele aprendeu a fazer isso?

Então não colaborou com o KGB enquanto estudava?

Eles nem tentaram recrutar-me como agente, embora fosse uma prática generalizada na época. Muitas pessoas colaboraram com as agências de segurança. A cooperação de cidadãos normais foi uma ferramenta importante para a actividade viável do Estado. Mas o ponto principal era o tipo de base em que essa cooperação era estabelecida. Você sabe o que é um “seksot”?

Significa colega secreto ou colaborador.

Certo. Mas sabe por que adquiriu uma conotação tão negativa?

Ideológica.

Sim, ideológica. Eles fiziam investigação política. Todos pensam que o trabalho dos serviços secretos é interessante. Sabe que noventa por cento de todas as informações dos serviços secretos são obtidas de uma rede de agentes composta de cidadãos soviéticos comuns? Esses agentes decidem trabalhar pelos interesses do Estado. Não importa como designam este trabalho. O importante é: Em que base essa cooperação acontece? Se é baseada em traição e ganho material, é uma coisa. Mas se é baseada em alguns princípios idealistas, então é outra coisa. E quanto à luta contra o banditismo? Não se pode fazer nada sem agentes secretos.

Então, quando é que aderiu ao KGB?

 Durante todos esses anos na universidade, esperei que o homem da secretaria do KGB se lembrasse de mim. Parecia que ele se tinha esquecido de mim. Afinal, eu tinha ido vê-lo quando era ainda um garoto da escola. Quem teria pensado que eu poderia ter essa coragem? Mas recordei que eles não gostavam que as pessoas mostrassem iniciativa própria, então não me dei a conhecer. Permaneci sossegado.

Passaram quatro anos. Nada aconteceu. Pensei que o caso estava encerrado e comecei a procurar outras alternativas para encontrar emprego no gabinete do promotor de Justiça ou como advogado. Ambos são campos de prestígio.

* Este segmento de perguntas e respostas foi publicado em jornais, mas não foi incluído na edição russa do livro de Vladimir Putin, First Person. Várias outras passagens das entrevistas que foram publicadas apenas em jornais, estão incluídas nesta edição em inglês.

Mas então, quando estava no meu quarto ano da universidade, um homem veio e pediu-me para me encontrar com ele. Não disse quem era, mas percebi imediatamente, porque ele disse: “Preciso de falar consigo sobre a sua carreira profissional. Não gostaria de especificar já, exactamente o que é.” Percebi de imediato. Se eles não quisessem dizer aonde, significava que seria lá.

Concordámos encontrar-nos no vestíbulo da Faculdade. Ele estava atrasado. Esperei por cerca de 20 minutos. Bem, eu pensei, que suíno! Ou estaria alguém a pregar-me uma partida? E decidi ir embora. Então, de repente, ele chegou, sem fôlego.

“Sinto muito”, disse.

Gostei daquilo.

“Está tudo combinado”, disse ele. “Volodya, ainda falta muito tempo, mas como se sentiria se fosse convidado para trabalhar nas agências?” Não lhe contei que sonhara com esse momento desde que andava na escola. Não lhe disse, porque me lembrei da minha conversa na secretaria do KGB, há muito tempo: “Não aceitamos pessoas que nos procuram por sua iniciativa”.

E quando você concordou em trabalhar nas agências, você pensou em 1937?

Para ser sincero, nem pensei em tal. Nem um pouco. Recentemente, encontrei-me com alguns antigos colegas do pessoal da Directoria da KGB com quem trabalhei no começo e falámos sobre a mesma coisa. E posso dizer–lhes o que lhes disse: quando aceitei a proposta do departamento de pessoal da Directoria (na verdade, o meu recrutador era um funcionário da subdivisão que trabalhava com as universidades), não pensei nas purgas [na era de Stalin]. A minha noção do KGB vinha de histórias românticas de espionagem. Eu era um produto puro e totalmente bem-sucedido da educação patriótica soviética.

Não sabia nada sobre as purgas?

Não sabia muito. Sim, claro, eu sabia do culto de personalidade de Stalin. Sabia que as pessoas haviam sofrido e que o culto da personalidade havia sido desmantelado. . . . Não era completamente ingénuo. Tenha em mente que eu tinha 18 anos quando fui para a universidade e que me formei aos 23 anos.

Mas os que se importavam saber, sabiam tudo sobre isso.

Vivíamos sob as condições de um estado totalitário. Tudo estava oculto.

Quão profundo era esse culto da personalidade? Quão grave foi ?

Os meus amigos e eu não pensamos nisso. Então fui trabalhar para as agências com uma imagem romântica do que eles faziam. Mas depois dessa conversa no vestíbulo, não ouvi mais nada. O homem desapareceu. E depois houve um telefonema; um convite para o departamento de pessoal da universidade. Dmitry Gantserov ainda me lembro de seu nome foi o único a falar comigo.

Mas houve quase um deslize na comissão de emprego. Quando chegaram ao meu nome, um representante do Departamento de Direito disse: “Sim, estamos a treiná-lo para exercer num tribunal”. Então o agente que estava a controlar as tarefas dos alunos, de repente acordou, ele estava a dormir num canto. “Oh, não”, disse. “Essa questão já foi decidida. Estamos a contratar Putin para trabalhar nas agências do KGB.” Ele proferiu isso em voz alta assim, na frente da comissão de trabalho.

E então, vários dias depois, eu estava a preencher todos os tipos de formulários e documentos.

Eles disseram que estavam a contratá-lo para trabalhar noa serviços secretos?

Claro que não. Foi tudo muito sistemático. Eles colocam o assunto da seguinte maneira: “Estamos a propor-lhe que trabalhe no campo para o qual o enviaremos. Você está pronto?” Se o requerente hesitava e dizia que tinha que pensar sobre isso, eles diziam simplesmente : “Ok. Próximo!” E essa pessoa não teria outra oportunidade. Você não pode erguer o nariz e dizer: “Eu quero isto e não quero aquilo”. Eles não podem empregar pessoas assim.

Claro que disse que estava pronto para trabalhar para onde eles o enviassem?

Sim. Claro. E eles mesmos nem sabiam onde eu iria trabalhar. Estavam apenas a contratar novos funcionários. Na verdade, é uma questão de rotina, recrutar pessoal e determinar quem deve ser enviado e para onde. Foi-me feita uma oferta de rotina.

Sergei Roldugin:

Vovka disse-me imediatamente que estava a trabalhar no KGB. Praticamente de imediato. Talvez não devesse fazer isso. Ele disse a algumas pessoas que estava a trabalhar na polícia. Por um lado, eu tratei esses fulanos com cautela, porque tive alguns desentendimentos com eles. Tinha viajado para o estrangeiro e sabia que havia sempre pessoas declaradas como sendo inspectores ou funcionários do Ministério da Cultura. Tínhamos de manter a boca fechada quando estávamos perto deles.

Certa vez contei a um colega meu: “Vamos lá, eles são normais, são bons rapazes”. E ele disse: “Quanto mais falar com eles, tanto mais lixo eles terão no seu cadastro, na rua Liteiny.”

* 4 Liteiny Street foi o endereço da sede do KGB, em Leningrado e actualmente aloja o sucessor do KGB, o FSB (Serviço Federal de Segurança).

Nunca inquiri Volodya sobre o seu trabalho. Claro que estava curioso. Mas lembro-me de quando decidi encurralá-lo e descobrir algo sobre alguma operação especial. Não cheguei a nenhuma conclusão.  

Mais tarde, disse-lhe: “Sou violoncelista. Tóco violoncelo. Nunca poderia ser um cirurgião. Ainda assim, sou um bom violoncelista. Mas qual é a tua profissão? Sei que és um espião. Não sei o que isso significa. Quem és? O que fazes?”

Ele respondeu: “Sou especialista em relações humanas”. E esse foi o fim da nossa conversa. Realmente, ele pensava que era capaz de julgar personalidades. Quando me divorciei de minha primeira esposa, Irina, ele disse: “Eu previ que seria exactamente assim que aconteceria”. Discordei. Não podias saber o que aconteceria entre mim e Irina desde o começo. Mas o seu comentário causou uma grande impressão em mim. Acreditava no que ele dizia: que era especialista em relações humanas.

A seguir:

 

PARTE 4
O JOVEM ESPECIALISTA

 

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos