Joe Biden arregimenta os aliados

6/4/2021, Manlio Dinucci, “A Arte da Guerra”, Il Manifesto, Itália 

Depois de atacar a partir do Mediterrâneo oriental – zona das forças navais do Comando Europeu dos EUA, cujo quartel-general está em Nápoles-Capodichino –, o porta-aviões Eisenhower atravessou o canal de Suez, reaberto dia 2 de abril.

No seu programa eleitoral, Joe Biden anunciara que “Agora que o presidente Trump abandonou aliados e parceiros e abdicou da liderança norte-americana, cuidarei imediatamente, como presidente, das providências para renovar as alianças dos EUA, para que os EUA, uma vez mais, conduzam o mundo” (il manifesto, 10/11/2020). Está cumprindo a promessa.

O porta-aviões Dwight D. Eisenhower e o respectivo grupo de combate aeronaval, composto de cinco unidades lança-mísseis, “atacaram, a partir do Mediterrâneo Oriental, posições do Estado Islâmico na Síria e no Iraque”, depois que o Iraque “reivindicou a autoria de um ataque a Palma, em Moçambique”.

É o que se lia no comunicado oficial da Marinha dos EUA dia 31 de março, sem qualquer explicação de como seria possível que o Daech – derrotado na Síria e em outros fronts – por efeito, sobretudo, da intervenção russa, teria renascido, sem mais nem menos, como ameaça, e tão suspeitamente pontual.

Depois de atacar a partir do Mediterrâneo oriental – zona das forças navais do Comando Europeu dos EUA, cujo quartel-general está em Nápoles-Capodichino – o porta-aviões Eisenhower atravessou o canal de Suez, reaberto dia 2 de abril, e entrou na zona relevante do Comando Central dos EUA, que engloba o golfo árabe-persa.

Ali se reuniu ao porta-aviões francês Charles-de-Gaulle que, a pedido de Washington, assumiu, dia 31 de março, o comando da Força-tarefa 50 do Comando Central dos EUA, deslocada – não contra algum Daech, mas, na verdade, contra o Irã.

O fato de Washington ter pedido que Paris guie, com seu navio almirante, uma força naval norte-americana enquadra-se na política do governo Biden, que preserva para os EUA o controle da cadeia de comando, dado que o comando da Força-Tarefa 50 depende do Comando Central dos EUA.

É o que se vê confirmado no exercício Warfighter, planejado pelo exército dos EUA, a ser realizado de 6 a 15 de abril por divisões de EUA, França e Grã-Bretanha nos fortes Hood e Bliss, no Texas, e no Forte Bragg na Carolina do Norte, e em Grafenwöhr, na Alemanha.

Nesse exercício, as brigadas francesas e britânicas operarão no seio de uma divisão dos EUA; e as brigadas dos EUA operarão no seio de divisões francesas e britânicas, mas sempre conforme o plano dos EUA. Warfighter integra as grandes manobras em curso Defender-Europe 21 (ing.), que o exército dos EUA na Europa e África efetua até fins de junho, com aliados e parceiros europeus e africanos, para demonstrar “a capacidade dos EUA para ser parceiro estratégico nos Bálcãs e no Mar Negro, no Cáucaso, na Ucrânia e na África”.

É o 5º Corpo do exército terrestre dos EUA quem participa do exercício Defender-Europe 21: depois de reativado em Fort Knox, Kentucky, em 2020 [havia sido desativado em 2013], o 5º Corpo estabeleceu seu quartel-avançado em Poznan na Polônia, a partir de onde comanda as operações contra a Rússia. Dia 31 de março, a pedido dos ianques, o general polonês Adam Joks [chefe do estado-maior adjunto das forças armadas polonesas] foi nomeado comandante adjunto do 5º Corpo do exército dos EUA.

A embaixada dos EUA em Varsóvia comunica que “É a primeira vez que um general polonês entra na estrutura de comando militar dos EUA”.

Em outras palavras, o general Adam Joks continua a fazer parte do exército polonês, mas, como comandante adjunto do 5º Corpo de exército dos EUA, obedece agora diretamente à cadeia de comando chefiada pelo presidente dos EUA: recebe ordens dos EUA, e as impõe a poloneses.

As novas Brigadas de assistência das forças de segurança entram na mesma linha: são unidades especiais dos coturnos norte-americanos em solo para “organizar, treinar, equipar e aconselhar forças de segurança estrangeiras”. São engajadas “em apoio a uma autoridade legítima de governo” no Oriente Médio, na Ásia, na África, na América Latina e na Europa, presentemente no quadro de Defender-Europe. É instrumento eficaz para lançar, sob a fachada de ‘assistência’, operações militares que, de fato, estão sob comando dos EUA.

Assim se entende por que, depois de relativa trégua, o chefe do estado-maior da Ucrânia, Ruslan Khomchak, declarou, dia 1º de abril, que o exército de Kiev “prepara-se para a ofensiva na Ucrânia oriental”.

Falava de a Ucrânia preparar-se para atacar a população russófona do Donbass, utilizando também “forças de defesa territorial” (como o regimento neonazista Azov). E esclarecia que, nessa operação está prevista “a participação de aliados da OTAN” [pano rápido].******