CAPÍTULO SETE — FULL SPECTRUM DISCLOSURE

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FULL SPECTRUM DOMINANCE

ou

DOMÍNIO DA UNIVERSALIDADE

INTRODUÇÃO

CAPÍTULO UM

CAPÍTULO DOIS

CAPÍTULO TRÊS 

CAPÍTULO QUATRO 

CAPÍTULO CINCO 

CAPÍTULO SEIS

CAPÍTULO SETE – Completo

A Obsessão Nuclear de Washington

A Defesa anti-mísseis é o elo que faltava para um ‘First Strike’.

                   – Tenente Coronel Robert Bowman, antigo Director do Programa de Defesa Contra Mísseis dos EUA (1)

A Persistência Secreta da Supremacia Nuclear

O que Washington não disse, mas Putin mencionou no seu discurso de Fevereiro de 2007, em Munique, foi que a defesa anti-mísseis dos EUA não era de modo algum defensiva. Era ofensiva em extremo.

Se os Estados Unidos pudessem proteger-se, efectivamente, de uma potencial retaliação russa a um primeiro ataque nuclear dos EUA, então os EUA seriam capazes de impor as suas condições ao mundo inteiro, não só à Rússia. Isso seria a supremacia nuclear. Era esse, o verdadeiro significado do discurso invulgar de Putin. Ele não era paranóico. Estava a ser totalmente realista.


Agora estava ficar claro que, mesmo após o final da Guerra Fria, em 1989, o governo dos EUA não tinha  parado, nem por um momento, o seu esforço para obter a Supremacia Nuclear. Para Washington e para as suas elites financeiras e políticas, a Guerra Fria nunca terminou. Simplesmente, esqueceram-se de contar ao resto do mundo.

A tentativa dos EUA de controlar as condutas de óleo e energia em todo o mundo, a instalação de bases militares na Eurásia, a modernização e a actualização das frotas de submarinos nucleares e os comandos estratégicos de bombardeiros B-52 só faziam sentido quando analisados através da perspectiva da procura incansável dos EUA para conquistar a  Supremacia Nuclear.

Em Dezembro de 2001, a Administração Bush anunciou a sua decisão de se retirar, unilateralmente, do Tratado de Mísseis Anti-Balísticos EUA-Rússia. Foi um passo crítico na corrida de Washington para concluir a sua rede global de capacidade de ‘defesa anti-mísseis’ como o fundamento para a Supremacia Nuclear dos EUA.

Na sua busca pela Supremacia Nuclear, Washington violou, simplesmente, as suas obrigações relativas aos tratados internacionais porque essas grandes quantidades acumuladas de mísseis tinham sido explicitamente proibidas por eles. Ao revogar o Tratado ABM por Ordem Executiva, o Presidente também usurpou os poderes concedidos pela Constituição dos Estados Unidos ao Congresso. Sinistramente, na histeria nacional após o 11 de Setembro, dificilmente houve um pio de protesto do Congresso.

De acordo com o ‘The New York Times’, o uso do Espaço para instalação de armas direccionadas à Terra ou armas guiadas do Espaço, já era uma realidade em 2001: “Os planeadores de guerra conceberam inúmeras armas novas e emocionantes”, referia o artigo cheio de entusiasmo.

Falar sobre essas armas não é uma conversa que os militares queiram ter em público, dado o debate macabro sobre o escudo de mísseis, mas é o assunto que eles têm em privado, há algum tempo.(2)

Provas das ambições globais ininterruptas por parte das Forças Armadas dos EUA podiam ser encontradas num “estudo futuro” encomendado em 1995-96, pelo Chefe do Estado-Maior da Força Aérea dos EUA. O relatório, Air Force 2025/Força Aérea 2025, era uma elaboração maciça em quatro volumes, de centenas de sistemas de armas espaciais super sofisticadas e tecnologicamente avançadas, destinadas a fornecer aos Estados Unidos, capacidades de apoio ao combate global, no Espaço. Esses foram considerados os sistemas necessários para os EUA “permanecerem a força aérea e espacial dominante no futuro” (3), como parte integrante da estratégia de Domínio do Espectro Total do Pentágono.

Uma das armas, por exemplo, era um “canhão laser” no Espaço, descrito de maneira arrepiante, como se segue:

Atacaria com sucesso alvos terrestres ou aéreos, derretendo ou quebrando os velames da cabine, queimando através de cabos de controlo, explodindo tanques de combustível, derretendo ou queimando conjuntos de sensores e conjuntos de antenas, explodindo ou derretendo cápsulas de munições, destruindo comunicações terrestres e redes eléctricas e derretendo ou queimando uma grande variedade de alvos estratégicos (por exemplo, barragens, instalações industriais e de defesa e fábricas de munições) – tudo numa fracção de segundos.(4)

Outra secção da Força Aérea 2025 descrevia pequenos projécteis de metal disparados contra a Terra, a partir do Espaço. Essas “flechettes” poderiam penetrar na Terra a uma profundidade de 800 metros, destruindo alvos como bunkers subterrâneos.(5)

Apesar das advertências e isenções de responsabilidade de que o Relatório não representava as opiniões dos Estados Unidos ou do seu Departamento de Defesa, ou mesmo da Força Aérea, o mesmo tinha sido autorizado nas mais altas fileiras do Pentágono.

O Dr. Robert Bowman, Tenente Coronel aposentado da Força Aérea dos EUA, que dirigiu os primeiros esforços da defesa anti-míssil do Governo dos EUA, quando ainda era extremamente secreto, observou:

 [Eles] reproduzem os resultados dos estudos que realizamos nos na década de 1970 e início dos anos 80. A diferença é que, então, consideramos os resultados, razão suficiente para continuar a nossa política nacional de manter as armas no Espaço, enquanto agora levam os falcões da guerra a descartar as restrições do Tratado e a continuar uma forma ainda mais total de superioridade militar absoluta. O primeiro orçamento de Bush quadruplicou as despesas em estações de batalha laser. No seu novo orçamento, ele dá aos guerreiros espaciais um cheque essencialmente em branco. Agora, ele mais uma vez renomeou e reorganizou o departamento do Pentágono que faz ‘A Guerra das Estrelas’.

Sob Reagan e Bush I, era a Organização de Iniciativa de Defesa Estratégica (SDIO). Sob Clinton, tornou-se a Organização de Defesa contra Mísseis Balísticos (BMDO). Agora, Bush II converteu-a em Agência de Defesa contra Mísseis (MDA) e libertou-a da supervisão e da auditoria anteriormente desfrutadas apenas pelos projectos negros. Se o Congresso não agir logo, esta nova agência independente poderá pegar no seu orçamento essencialmente ilimitado e gastá-lo fora do escrutínio público e do Congresso em armas sobre as quais não saberemos nada até que estejam no Espaço. Então, em teoria, os guerreiros espaciais governariam o mundo, capazes de destruir qualquer alvo na Terra sem aviso prévio.

Estas novas super armas trarão segurança ao povo americano? Dificilmente.(6)

NMD – ‘O Elo que Faltava para um Primeiro Ataque’

Mesmo com um escudo de defesa anti-mísseis primitivo, os EUA poderiam atacar silos de mísseis russos e frotas submarinas com menos medo de retaliação efectiva; os poucos mísseis nucleares russos restantes seriam incapazes de lançar uma resposta suficientemente destrutiva.

Durante a Guerra Fria, a capacidade de ambos os lados – o Pacto de Varsóvia e a NATO – de se aniquilarem mutuamente, levou a um impasse nuclear apelidado por estrategas militares, MAD – Destruição Mutuamente Assegurada. Era assustador, mas, num sentido bizarro, mais estável do que o que viria mais tarde com a procura unilateral dos EUA da supremacia nuclear. O MAD era baseado na perspectiva de aniquilação nuclear mútua, sem vantagem decisiva para nenhum dos lados; isto conduziu a um mundo em que a guerra nuclear era ‘impensável’.

Agora, os EUA estavam à procura da possibilidade de uma guerra nuclear como ‘pensável’. Isso era real e verdadeiramente ‘louco/mad’.

O primeiro país com um escudo de ‘defesa’ de mísseis nucleares (NMD) teria, de facto, ‘capacidade de primeiro ataque’. Muito correctamente, o Tenente Coronel Bowman, que tinha sido Director do Programa de Defesa de Mísseis da Força Aérea dos EUA, durante a era Reagan, denominou a defesa anti-mísseis, como sendo “o elo que faltava para um First Strike”. (7)

O escudo de defesa contra mísseis nucleares dos EUA, que estava em desenvolvimento ultra-secreto pelo Pentágono desde os anos 70, envolvia um sistema terrestre que podia responder a um ataque limitado de mísseis. Havia cinco partes no sistema NMD, incluindo instalações de radar por fases que podiam detectar um lançamento de mísseis inimigos e localizá-los. Em teoria, logo que os mísseis detectados fossem lançados e fossem confirmados a alvejar os Estados Unidos ou de qualquer outro alvo específico, a próxima fase era accionar um ou mais dos cem mísseis interceptores para destruir o míssil balístico inimigo antes dele chegar espaço aéreo dos EUA.

A comunicação mediática americana e os seus habituais comentadores políticos permaneceram praticamente em silêncio sobre as implicações do esforço de Washington para instalar a ‘defesa’ anti mísseis na Polónia e na República Checa, ou sobre a sua ânsia generalizada sobre a Supremacia Nuclear.

A história das negociações, muitas vezes secretas, com os governos da Polónia e da República Checa para colocar mísseis controlados pelos EUA nesses dois antigos países do Pacto de Varsóvia revelou a hipocrisia da política dos EUA, em relação aos seus verdadeiros objectivos.

As negociações de mísseis dos EUA com Varsóvia e Praga começaram no final de 2003, apenas alguns meses após a queda de Bagdad, segundo fontes do governo polaco.

Em 13 de Julho de 2004, o jornal Guardian informou que altos funcionários em Praga, confirmaram as negociações EUA-Polónia/República Checa. O mesmo jornal revelou que estavam em andamento negociações sobre o estabelecimento de estações de radar avançadas americanas na República Checa, como parte do projecto do escudo anti-mísseis. “Estamos muito interessados em fazermos parte concreta do acordo”, disse Boguslaw Majewski, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Polónia. “Temos discutido esta questão com os americanos desde o final do ano passado.” (8)

Outras fontes em Varsóvia disseram ao Guardian que os oficiais do Pentágono estavam a observar as montanhas do sul da Polónia, identificando locais adequados para duas ou três estações de radar ligadas ao programa designado como “Filho da Guerra das Estrelas”.

Além dos locais de radar, os polacos disseram que queriam hospedar um local de interceptores de mísseis, um grande silo subterrâneo reforçado a partir do qual, mísseis de longo alcance poderiam ser lançados para interceptar e destruir foguetões.

De acordo com os planos da Administração Bush, dois locais de interceptores de mísseis estavam a ser construídos nos EUA – um na Califórnia e outro no Alasca. O local na Polónia seria a primeira instalação desse tipo fora da América e a única na Europa. Essa extensão notável e sem precedentes, da capacidade nuclear dos EUA, passou praticamente desapercebida na comunicação mediática americana.

 “Um local interceptor seria mais atraente. Não seria difícil vender na Polónia”, comentou Janusz Onyszkiewicz, antigo Ministro da Defesa polaco. Mas outros exprimiram uma preocupação maior. “ Sabia sobre possíveis locais de radar, mas fiquei surpreendido ao ouvir falar sobre silos de mísseis”, observou outro observador de Varsóvia.(9)

Claramente, o Ministro da Defesa polaco mais envolvido – pelo menos até Fevereiro de 2007 – na negociação da colocação de mísseis americanos provocadores na Polónia, foi Radek Sikorski. Pouco depois, Sikorski tornou-se Ministro dos Negócios Estrangeiros. Sikorski, 44 anos, frequentou o Pembroke College de Oxford, em Inglaterra e, em 1984, tinha-se tornado cidadão britânico naturalizado. Também era um neoconservador polaco cauteloso, que havia regressado à Polónia para fazer avançar a agenda dos falcões neoconservadores de Washington.

A carreira anglo-americana de Sikorski decolou em 1990, após o colapso do comunismo. Foi então protegido pelo financeiro neoconservador, Rupert Murdoch, o poderoso bilionário proprietário do London Times, do tablóide Sun e da rede neoconservadora agressiva da Fox TV, nos EUA. Sikorski aconselhou Murdoch nos “investimentos” feitos pelo mesmo Murdoch, na Polónia.

Apesar de ser detentor de cidadania britânica, Sikorski foi nomeado para vários cargos no governo polaco, incluindo de Ministro Adjunto da Defesa, e em 2002, atravessou o Atlântico para um cargo em Washington – para trabalhar com o neoconservador ‘Príncipe das Trevas’, Richard Perle. Sikorski tornou-se um Resident Fellow no American Enterprise Institute (AEI), em que Perle garantiu a promoção de Sikorsi a Director executivo da New Atlantic Initiative. A partir daí, Sikorski regressou à Polónia como Ministro da Defesa Nacional, em 2005.(10)

O mais notável da carreira fulgurante de Sikorski foi que, como Director Executivo da Iniciativa do Novo Atlântico (AEI’s New Atlantic Initiative), preparou documentos políticos sobre a NATO e sobre a defesa anti-mísseis, ou seja, a NMD. As instalações de defesa anti-mísseis do Pentágono nos perímetros da Rússia, em 2006, instalaram o projecto que os amigos de Sikorski, em Washington, tinham formulado alguns anos antes. (11)

A infraestrutura de mísseis dos EUA na Europa Oriental era, de longe, a empresa mais imprudente de uma cabala que já havia demonstrado a sua tendência para uma perversidade perigosa e tola. A construção a ser efectuada pelos EUA, de “defesas” de mísseis na Polónia e na República Checa, incluiria silos de mísseis a poucos minutos de possíveis alvos russos. Ninguém seria capaz de dizer se continham mísseis nucleares americanos ou não. Esta medida, na verdade, colocaria o mundo num estado de reacção imediata ao mínimo estímulo, para uma possível guerra nuclear por intenção ou erro de cálculo, muito mais perigosa do que a decisão da NATO, de 1980, de instalar mísseis Pershing (nucleares) na Europa Ocidental.

Fazia recordar o documento que se tornou o plano estratégico da defesa e da política externa depois de George W. Bush entrar na Casa Branca, em Janeiro de 2001: Reconstruindo as Defesas da América, o relatório de Setembro de 2000, da fortaleza neoconservadora, o Projecto para o Novo Americano. Século(PNAC).

O documento da estratégia do PNAC declarava:

Os Estados Unidos devem desenvolver e instalar defesas globais de mísseis para defender a pátria e os aliados americanos e fornecer uma base segura para a projecção do poder dos EUA em todo o mundo.(12)

Antes de se tornar Secretário da Defesa de Bush, em Janeiro de 2001, Rumsfeld também chefiara uma Comissão Presidencial que defendia o desenvolvimento de defesa anti-mísseis para os Estados Unidos, além de participar no projecto PNAC.(13)

A Administração Bush-Cheney estava tão ansiosa por avançar os seus planos de defesa anti-mísseis, que o Presidente e o Secretário da Defesa Rumsfeld renunciaram aos requisitos de testes operacionais habituais necessários para determinar se os sistemas altamente complexos eram eficazes.

O programa de defesa anti-mísseis de Rumsfeld foi fortemente contrariado dentro do comando militar. Em 26 de Março de 2004, nada menos de 49 generais e almirantes dos EUA, incluindo o Almirante William J. Crowe, antigo Presidente do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas, assinaram uma Carta Aberta ao Presidente, apelando ao adiamento da defesa anti-mísseis. Nessa carta aberta, eles apontaram, explicitamente:

A tecnologia dos EUA, já instalada, pode identificar a fonte de um lançamento de míssil balístico. Portanto, é altamente improvável que qualquer Estado se atreva a atacar os EUA ou permita que um terrorista o faça, a partir de seu território, com um míssil armado com uma arma de destruição em massa, arriscando assim a aniquilação devido a um ataque de retaliação devastador dos EUA.

Como dito por si, Sr. Presidente, a nossa maior prioridade é impedir que terroristas adquiram e empreguem armas de destruição em massa. Concordamos. Por esta razão, recomendamos, como  linha de conduta de uma acção militarmente responsável, que adie a instalação operacional do sistema GMD (Ground-Missile Defense), caro e não testado, e transfira o financiamento associado para programas acelerados a fim de proteger as múltiplas instalações que contêm armas e materiais nucleares e proteger os nossos portos e fronteiras contra terroristas que possam tentar contrabandear armas de destruição em massa para os Estados Unidos.(14)

Preparando o ‘First Strike’ Nuclear

O que os oficiais militares experientes não disseram foi que, Rumsfeld, Cheney, Bush e companhia tinham uma agenda bem diferente em mente, para além de ameaças terroristas desonestas. Eles estavam atrás do Domínio do Espectro Total, da Nova Ordem Mundial e da eliminação da Rússia, de uma vez por todas, como uma potencial rival do poder.

A pressa dos EUA em instalar um escudo de defesa anti-mísseis não visava, claramente,  os ataques terroristas da Coreia do Norte ou do Médio Oriente. Era destinado à Rússia. Destinava-se também, em menor grau, às capacidades nucleares muito menores da China. Como observaram os 49 generais e almirantes na sua carta ao Presidente, em 2004, os EUA já tinham ogivas nucleares mais do que suficientes para atingir mil bunkers ou cavernas de qualquer estado desonesto em potencial ou um Osama bin Laden.

Dois analistas militares dos EUA chegaram à mesma conclusão sinistra. Escrevendo em Foreign Affairs, revista do Council on Foreign Relations, em Março de 2006, eles observaram:

Se a modernização nuclear dos Estados Unidos fosse realmente direccionada a estados desonestos ou terroristas, a força nuclear do país não precisaria das milhares de ogivas adicionais que obterá com o programa de modernização do W-76. Por outras palavras, a actual e futura força nuclear dos EUA, parece projectada para realizar um ataque de desarmamento preventivo contra a Rússia ou contra a China.

Os dois analistas de estratégia continuaram com o seu argumento:

. . . Hoje, pela primeira vez em quase 50 anos, os Estados Unidos estão perto de atingir a supremacia nuclear. Provavelmente em breve será possível que os Estados Unidos destruam os arsenais nucleares de longo alcance da Rússia ou da China com um ‘first strike’. Essa mudança dramática no equilíbrio de energia nuclear decorre de uma série de melhorias nos sistemas nucleares dos Estados Unidos, do declínio vertiginoso do arsenal da Rússia e do ritmo glacial da modernização das forças nucleares da China. A menos que as políticas de Washington mudem ou que Moscovo e Pequim tomem medidas para aumentar o tamanho e a prontidão das suas forças, a Rússia e a China – e o resto do mundo – viverão na sombra da supremacia nuclear dos EUA, durante muitos anos.

Referindo-se aos planos, novos e agressivos, de instalação do Pentágono para a defesa anti-mísseis, Lieber e Press concluíram:

. .. [O] tipo de defesa de mísseis que os Estados Unidos poderiam possivelmente instalar seria valioso principalmente num contexto ofensivo, não defensivo – como um complemento da capacidade do Primeiro Ataque dos EUA, e não como um escudo isolado. Se os Estados Unidos lançassem um ataque nuclear contra a Rússia (ou contra a China), o país-alvo ficaria com apenas um pequeno arsenal sobrevivente – se é que ficassem com algum. Neste ponto, mesmo um sistema de defesa anti-mísseis relativamente modesto ou ineficiente pode muito bem ser suficiente para proteger contra quaisquer ataques de retaliação. . . .(15)

Esta era a verdadeira agenda do Grande Jogo Eurasiático de Washington.

O escudo de defesa anti-mísseis agressivo do governo Bush para a Polónia e para a República Checa causou enorme atrito nas relações entre os EUA e a Rússia, tanto dentro da aliança da NATO, como directamente com a Rússia. O mundo procurou descobrir se o Presidente Barack Obama poderia agir para diminuir as tensões crescentes, oferecendo-se para reabrir as negociações com Moscovo, sobre a colocação de mísseis.

A decisão de Barack Obama de manter o Secretário republicano de Defesa, Robert Gates, um defensor aberto do plano de defesa anti-mísseis de Bush, e de nomear o General James Jones, um militar, para seu Conselheiro de Segurança Nacional não era um bom presságio para qualquer reversão política. No início de 2009, o mundo estava em rota de colisão com potenciais dimensões nucleares, quase duas décadas depois do fim fictício da Guerra Fria.

Full Spectrum Dominance/Domínio do Espectro Total

Para compreender melhor a enormidade da projecção de poder militar dos EUA desde a Guerra Fria, era necessário visualizar os planos agressivos da Defesa contra Mísseis para a Europa Oriental, no contexto geral de mudanças dramáticas na postura da força militar dos EUA e a instalação de bases militares desde os anos 90.

A estratégia militar oficial dos EUA tinha sido definida pela doutrina do Pentágono como o Domínio do Espectro Total, da qual a “defesa de mísseis balísticos” era um componente determinante. De acordo com declarações oficiais do Pentágono, Full Spectrum Dominance, ou FSD, era:

O conceito abrangente para aplicar a força hoje e fornecer uma visão para futuras operações conjuntas. Alcançar o FSD exige que as Forças Armadas concentrem os seus esforços de transformação nas áreas chave de capacidade que aumentam a aptidão da força conjunta para obter sucesso em toda a gama de operações militares. O FSD requer capacidades militares conjuntas, conceitos operacionais, conceitos funcionais e facilitadores críticos adaptáveis a diversas condições e objectivos.

O FSD reconhece a necessidade de integrar as actividades militares com as de outras agências governamentais, a importância da ligação e funcionamento em conjunto com aliados e outros parceiros.(16)

O Full Spectrum incluía a totalidade da Terra e do Espaço, até o ciberespaço. Como o Pentágono declarou, entre as suas oito prioridades estava “Operar nos Comuns (recursos culturais e naturais acessíveis a todos os membros de uma sociedade : Espaço, águas internacionais e espaço aéreo e ciberespaço”. (17)

O desenvolvimento de um sistema operacional de defesa anti-mísseis dos EUA como alta prioridade durante a Administração Bush foi bastante alarmante. Poucos perceberam a dimensão adicional da instabilidade, na medida em que ela estava interligada à ordem Top Secret (Ultra Secreta) do Secretário de Defesa das Forças Armadas dos Estados Unidos para implementar algo chamado Conplan 8022, “que fornece ao Presidente uma capacidade imediata de ataque global.” (18)

O que significava que o ‘establishment’ dos Estados Unidos decidiu fazer da guerra nuclear uma “opção”. Era um caminho perigoso a seguir, para dizer o mínimo.

Endnotes:

1 Robert Bowman, Lt. Colonel, USAir Force (Ret.), Statement made during a telephone interview with the author, March 15, 2009. Bowman was Director of Advanced Space Programs Development for the Air Force Space Division until 1978. In that capacity, he controlled about half a billion dollars worth of space programs, including the “Star Wars” programs, the existence of which was (at that time) secret.

1 Robert Bowman, Tenente Coronel, USAir Force (Aposentado), Declaração feita durante uma entrevista por telefone com o autor, em 15 de Março de 2009. Bowman foi Director do Desenvolvimento de Programas Espaciais Avançados da Divisão Espacial da Força Aérea, até 1978. Nessa capacidade, ele controlava cerca de meio bilião de dólares em programas espaciais, incluindo os programas “Guerra das Estrelas”, cuja existência era (na época) secreta.

2 Jack Hitt, “Battlefield: Space,” The New York Times, August 5, 2001, Section 6, 30. https://www.nytimes.com/2001/08/05/magazine/battlefield-space.html

3 Jamie G. G. Varni, et al, “Space Operations: Through the Looking Glass (Global Area Strike System),” Air War College, Maxwell AFB, August, 1996. https://apps.dtic.mil/dtic/tr/fulltext/u2/a332682.pdf

4 Air Force 2025, Vol. 13, Ch. 3, “The Integrated Systems-of-Systems,” 21.

5 Ibid.

6 Robert M. Bowman, Lt. Colonel, US Air Force (Ret.), The ABM Treaty: Dead or Alive? (March 2002) https://historynewsnetwork.org/article/627

7 Robert Bowman, Lt. Colonel, US Air Force (Ret.), Statement made during a telephone interview with the author, March 15, 2009.

8 Ian Traynor, “US in talks over biggest missile defence site in Europe,” Warsaw, July 13, 2004, The Guardian. https://www.theguardian.com/world/2004/jul/13/usa.poland

9 Ibid.

10 American Enterprise Institute for Public Policy, Washington D.C. website, Radek Sikorski, on their official website, http://www.aei.org/?s=Radek+Sikorski

11 For a former Soviet official’s view of the dangers of the Pershing missile deployment, see Yevgeny Primakov, “ABM sites on Russia’s frontiers: Another Confrontation?” Moscow News, March 2, 2007.

12 Thomas Donnelly, Donald Kagan, et al., Rebuilding America’s Defenses: Strategy, Forces and Resources for a New Century, The Project for a New American Century, Washington, D. C., September, 2000.  http://www.visibility911.org/wp-content/uploads/2008/02/rebuildingamericasdefenses.pdf

13 Donald H. Rumsfeld, et al, ““Report of the Commission to Assess the Ballistic Missile Threat to the United States,” Washington, D.C., July 15, 1998, accessed in http://www.fas.org/lrp/threat/missile/rumsfeld . See also Lt. Gen. Robert G. Gard and Kingston Reif , Time To Rethink Missile Defense , Defense News, October 20, 2008.  https://armscontrolcenter.org/1539/

14 Reprinted in Center for Arms Control and Non-Proliferation, Briefing Book on Ballistic Missile Defense, Washington, D.C., May 2004, in http://www.armscontrolcenter.org/resources/20040501_bb_nmd.pdf . https://www.nap.edu/read/13189/chapter/3

15 Keir A. Lieber and Daryl G. Press, “The Rise of US Nuclear Primacy,” Foreign Affairs, March/April 2006, p. 51.Ibid, p.52. http://www.acamedia.info/politics/escalation/nass/The_Rise_of_U.S._Nuclear_Primacy_%7C_Foreign_Affairs.pdf

16 US Joint Chiefs of Staff, The National Military Strategy of the United States of America, 2004. Washington, D.C. https://history.defense.gov/Portals/70/Documents/nms/nms2004.pdf?ver=2014-06-25-123447-627

17 Ibid.

18 Hans M Kristensen, Global Strike: A Chronology of the Pentagon’s New Offensive Strike Plan, Federation of American Scientists, Washington, D.C., March 2006, accessed in https://www.nukestrat.com/pubs/GlobalStrikeReport.pdf


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O Dr. Strangelove vive!

Tradutora: Maria Luísa de Vasconcellos

Email: luisavasconcellos2012@gmail.com